

ENCICLOPÉDIA
SIMPOZIO
(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo
Pauli
CAP. 5
PINTURA EM
POESIA. 3911y610.
- Estética das
Cores -
611. A poesia já foi tema, quando inicialmente (cap. 1-o, art. 2)
(vd 55) se explicou a arte como
expressão por imitação mimética (ou
prosa) (vd 58) e expressão
por associatividade (ou poesia) (vd 64).
Agora passamos a abordar a poesia simplesmente em si mesma, em especial
a poesia em cores, praticada principalmente em pintura.
Didaticamente, a poesia em cores oferece de imediato os temas seguintes:
- natureza essencial e propriedades da poesia (art. 1-o) (vd 3911y613);
- operações associativas da poesia (art. 2-o) (vd 3911y637).
Também pertence ao estudo da poesia si mesma, sua distribuição
em gêneros poéticos. Isto o faremos entretanto com
destaque num capítulo especial, logo a seguir (cap.
6-o).
O que importa aqui e agora é, pois, definir plenamente os procedimentos
da poesia como evocação associativa, tendo como referencial
sempre a poesia em cores.
ART. 1o.
NATUREZA ESSENCIAL E PROPRIEDADES DA POESIA.
3911y613.
614. A redivisão didática, do que se propõe neste
primeiro artigo sobre a poesia, é óbvia:
- Natureza essencial da poesia pictórica (§1.) (vd 615);
- Propriedades da poesia (§ 2.) (vd 626).
Importa esta distinção para que se defina a poesia pelo que
lhe é efetivamente essencial e não simplesmente se a defina
apenas pela indicação de suas propriedades.
§1.
Natureza essencial da poesia pictórica.
3911y615.
616. É impossível observar um cenário de cores, como
num arranjo de flores, sem que em nós ocorra o despertar de imagens,
por vezes inúmeras, que são a frequente poesia de nossa vida,
em função da qual ela se torna esteticamente agradável.
Dessa poesia vamos agora tratar com detalhe e sequência sistemática
em sua abordagem. Já cuidamos da expressão em prosa. Completamos
o estudo da expressão, pelo exame também da expressão
em poesia.
Para fazermos o tratamento da poesia em cores temos de levar desde logo
em conta que em pintura, prosa e poesia andam praticamente sempre juntas,
tão juntas que não se torna uso falar ora em prosa, ora em
poesia, como acontece na linguagem. Enquanto na arte literária,
prosa e poesia se podem distanciar em textos separados, na pintura o usual
é a prosa e a poesia estarem combinadas na mesma obra. Apenas em
casos especiais, ocorre uma pintura sem poesia, como nas ilustrações
didáticas, nas representações ilustrativas de revistas
e jornais, no desenho industrial, na reportagem jornalística.
Diferentemente, na linguagem os procedimentos em prosa e poesia são
de tal maneira distintos, que a prosa se publica em textos separados daqueles
da poesia, e a poesia se distribui até mesmo de forma diferente
sobre a página.
Todavia também na pintura, prosa e poesia são maneiras muito
distintas de expressar, ainda que ambas as formas de expressão se
juntem na mesma tela, ou na mesma representação de teatro,
cinema e televisão.
Importa ir fundo na diferença dos dois procedimentos, para operar
conscientemente num e noutro expediente de expressão.
617. Definição nominal de poesia. Define-se a poesia
ora nominalmente, ora essencialmente, ora descritivamente,
por qualquer de suas propriedades. Convém ficar atento a estas diferenças
de definição, as quais dependem de um ponto de vista.
Em definição nominal, poesia (do étimo grego
póiesis) significa uma obra. Semanticamente, porém,
queria-se entender uma obra em termos de linguagem, e esta por sua vez
metrificada.
Pelo visto, a definição nominal não indica essencialmente
o que a poesia é como expressão associativa. A definição
nominal adverte apenas para o que genericamente se pode dizer de toda a
obra de arte. Por isso mesmo continua a resvalar o significado do nome
para referir-se à poesia também nas demais artes, como em
poesia na pintura, poesia na escultura, poesia na música.
Etimologicamente o nome para a expressão referida seria melhor se
lembrasse a associatividade, a evocação, a inspiração,
a sugestão. Mas isto não aconteceu na história da
etimologia e da semântica.
618. Definição essencial de poesia. Geralmente se
aborda a poesia a partir de um elemento descritivo qualquer. Importa, porém,
chegar a uma definição essencial da mesma.
A poesia se define como sendo a expressão associativa que, à
partir da expressão anterior de um objeto estímulo, indica
ato contínuo as imagens que se busca despertar na memória
(ou no subconsciente, o que é o mesmo).
O poeta exprime num primeiro tempo objetos capazes de, num segundo tempo,
associar imagens.
Sabe o poeta, que alguns objetos são mais evocativos e por isso,
de preferência ele os exprime no primeiro tempo de sua composição.
São objetos conhecidos como bastante associativos: sol, lua, estrela,
noite, nuvem, flor, perfume, mulher, criança, insetos, aves, árvores,
choupana, mar, noite, manhã, coração, namoro, desejo,
prazer, frustração, dor, esperança, objetos de nossa
vivência, como um cajueiro, ou uma choupana, ou um sitio, ou uma
cidade, etc. Estes objetos têm na composição poética,
- conforme já advertido, - como segundo objetivo a evocação
de imagens que tais objetos vão despertar no subconsciente, aflorando
à superfície, como um clima de novos significados.
Eis o que é a poesia. Quem for capaz de praticar a arte desta maneira
é poeta, seja poeta pela palavra, ou música, seja poeta pela
pintura, ou escultura.
Insistimos nos dois tempos sempre havidos na poesia. Num primeiro acontece
a expressão direta de um estímulo. Num segundo ocorre a resultância
da mensagem poética.
Não se faz e nem se interpreta a poesia como prosa, expressão
de um tempo. A poesia é uma técnica de expressão em
dois tempos através dum objeto estímulo adequadamente selecionado.
A definição de poesia acima exposta e já introduzida,
quando explicávamos a arte pela teoria da mimese (prosa) e associatividade
(poesia), deverá ser agora desenvolvida.
A este desenvolvimento se acrescerá o estudo de suas propriedades,
as quais também podem descritivamente definir a poesia, pois conduzem
a ela. Tal é, por exemplo, a definição que diz ser
a poesia uma expressão alógica, diferenciando-se da prosa
por ser esta uma expressão lógica.
619. Não importando, pois na poesia, o objeto inicial, este pode
até se banal, desde que rico em capacidade associativa.
Para a evocação associativa serve um qualquer cajueiro da
infância, em que brincávamos como meninos de trepar. Ou um
bananal, de onde derivavam frutas baratas e boas. Ou um rancho velho, no
qual não se exigiam formalidades para conversar e dizer pilhérias.
Considerando que, como estimulador de imagens tudo vale em poesia, pode-se
até afirmar, que não há banalidade que algum poeta
não houvesse cantado, nem assunto medíocre que algum pintor
não tenha retratado. É que as coisas sem significação
no primeiro tempo da expressão poética não têm
por função exprimir coisas profundas e nem grandiosas. Elas
têm por objetivo despertar imagens; sim, estas imagens devem ser
significativas, para que mereçam apreço.
620. A poesia na pintura difere da que se pratica em outras artes, isto
porque cada uma dispõe da diferentes recursos para expressar o objeto
estímulo das imagens e também diferentes para indicar as
mesmas imagens associadas. Mas em si mesmo o processo evocativo é
igual para a poesia em qualquer arte. Ou seja, a "poesia interna", que
funciona apenas ao nível da mente, esta é sempre idêntica
em seu processo.
Posto o diferencial no instrumento de expressão, o qual indica o
objeto estimulo, passemos a anotar como o expressa a pintura. Por exemplo,
se uma poesia toma com conteúdo a alegria que a presença
das crianças oferece, a pintura apresenta a figura mesma das crianças
com seres coloridos e variações; todavia e alegre colorido
somente o consegue a pintura evocar.
O mesmo não consegue a música; esta apresentará o
ambiente sonoro típico das crianças, que aliás não
pudera ser expresso pelas cores da pintura.
A linguagem falada dispõe um código de significados, que
aponta com precisão para os objetos estímulos da evocação;
porém de novo ocorre uma limitação, porquanto a sonoridade
da linguagem não imita à das crianças e nem consegue
a linguagem representar a imagem visual delas.
621. A prosa e a poesia de cada arte se complementam respectivamente na
prosa e na poesia da outra. Recomenda-se, pois, a aliança de todas
formas de expressão.
O perfume, o prazer e a dor não o evocam adequadamente os sensíveis
superiores do som e da cor.
A fragrância dos perfumes das flores não o conseguem expressar
diretamente nem a pintura, nem a música, nem a linguagem, senão
inadequadamente através de uma atmosfera característica.
O que em uma arte logra ser mimeticamente expresso em cores, em outras
somente o pode ser por associatividade, e ainda assim com limitações.
O que a pintura diretamente indica não o consegue a música.
De outra parte o que a música exprime adequadamente, não
o conseguirá a pintura.
As artes, em seus limites, se suplementam sobretudo com a associação
poética. Por isso, embora cada uma principie por seu instrumento
(cor, som, forma, símbolo) e exprima o seu tipo de aspectos adequados,
vão finalmente, por meio da evocação associativa aproximar-se
entre si; o que uma exprimia diretamente, a outra o consegue associativamente.
E então rolando na direção da mesma praia, desdobram
a mensagem no mesmo tapete de águas. Fazendo encontro na imaginação,
as artes terminam aproximando-se pela identidade de resultados.
As flores que bailam em um canteiro de jardim oferecem oportunidade de
poesia. A pintura indica formas e cores, mas não a musicalidade;
esta apenas pode ser evocada poeticamente.
A música mostra o frêmito sonoro e o movimento rítmico,
mas não indica as mesmas formas e cores, que são as flores;
então, através da sonoridade rítmica adequada sugere
evocativamente, isto é, mediante poesia, o canteiro enflorada.
E a fragrância dos perfumes? Nem a pintura e nem a música
a indicam diretamente; mas o clima atmosférico poderá sugerí-lo
e então novamente é a poesia que nos faz perceber e apreciar
o perfume das flores.
622. As outras artes tentam evocações na direção
da cor. Seguramente, todas as sensações se associam com o
visual; em sendo a vista o melhor dos sentidos, que obtém o maior
número de diferenças e portanto a maior nitidez, espontaneamente
tudo é esclarecido em função a ele.
Depois da vista, o ouvido é o mais desenvolto dos sentidos. A prova
está em que não falamos em música sem logo fazer comparações
de natureza visual. A imprecisão dos sons, faz com que esta arte
apele à evocação, particularmente dos objetos visuais.
No decorrer da música, a fantasia movimenta um baile de cores, despertando
objetos e situações: campinas, arvoredos, rios, córregos,
pássaros, flores, mulheres, dançarinas, volúpias,
relevos, subidas pelo ar, nuvens que passam, flocos de lã, luminosidades,
etc.
Os críticos descrevem a música com o apelo constante às
imagens que a música evoca na área da vista. Fala-se em efeitos
de exibições pirotécnicas... ondas sonoras e seu cimo
desfeito em plumas luminosas... violino a tecer elegantes variações...
623. A preocupação pictórica evocativa dos poetas
simbolistas foi marcada pelas cores atribuídas às próprias
vogais:
"A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu..."
(Artur Rimbaud, Voyelles).
Em tradução:
"A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul...
vogais,
Algum dia direi vossas fontes latentes:
A, - torso penugento e negro de esplendentes
moscas, zoando ao redor de podridões mortais,
Golfos de sombra; E, - fumo branco, alvos, tendais,
flechas de gelo, reis de luar, pálios trementes;
I, - púrpura, hemoptise, ébrios lábios candentes,
belos, em risos de ira ou penitentes ais;
U, - ciclos vibrações de oceanos verdes, paz
das veigas pastoris e das rugas que faz
na fronte do alquimista o longo investigar;
O supremo clarim de estranhos sons profundos,
Silêncios através dos anjos e dos mundos:
- O, Ômega, fulgor lilás do seu olhar!"
(Tradução de Brant Horta).
Aprecie-se o soneto Som e Cor, de Guerra Junqueiro:
"Alucina-me a cor! A rosa é como a lira,
A lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira".
624. A organização ampla dos estímulos evocativos
vem dar lugar a composição poética em plenitude. Conhecida
na poesia literária como composição poética
de muitas estrofes, a composição na poesia pictórica
acontece quando toda a tela inspira sentimentos e novas imagens.
Em si mesmas, as cores-estímulos operam isoladamente. Podem-se entretanto
organizar, tanto os estímulos como as associações
geradas, em estruturas externas. Estas estruturas externas de amparo organizacional
podem vir da mente (logicidade do pensamento) ou do tratamento objetivo
e subjetivo do sentimento. Destes fatores todos resulta finalmente a composição
poética ampla da tela.
§2.
Propriedades da poesia.
3911y626.
627. A poesia é um processo expressional alógico.
Consequentemente, a poesia se diz alógica. Isto quer dizer que seu
processo essencial não é exercido pela razão, mas
pelas faculdades sensíveis da imaginação e memória
(ou subconsciente).
Devemos advertir que se tem dado três sentidos, ou acepções,
à palavra alógico. Nós aplicamos um ao definir a poesia
como alógica. Um segundo não aplicado por ninguém
à poesia. O é um terceiro, como veremos.
Alógico, por sugestão do a privativo (do grego a-logikós)
é o que não contém palavra, que é sem razão.
Nesta acepção se enquadra a expressão poética,
quando a interpretamos como algo cujo procedimento essencial o situamos
nos sentidos da imaginação e memória, portanto fora
do campo lógico da inteligência, porque lhe é anterior.
Associar imagens não é uma operação mental
de conceituação, nem é ajuizamento e raciocinação.
É um procedimento normal anterior ao trabalho da razão. Sendo
anterior, admite ser dito pré-lógico e não apenas
a-lógico.
Colocada a associação das imagens, o trabalho da mente se
pode acrescer normalmente logo após, como ainda pode, por antecipação,
ocorrer anteriormente, com vistas a controlar o processo.
A conotação de uma imagem por outra, ou o despertar de uma
imagem por efeito de um estímulo se opera por motivos que são
de vivência, contraste, semelhança sensível,
sem necessidade de uma relação lógica entre a imagem
e a causa que a fez despertar.
628. As outras duas acepções de alógico poderão
ser usadas por equívoco na definição de poesia.
Semanticamente, alógico tem o seu significado deslocado para o que
lhe está próximo. Então alógico passa a significar
o ilógico, o irracional, o contraditório, o incoerente.
Não é certamente nesta segunda acepção que
se diz ser a poesia uma expressão alógica. A poesia não
contém nada de incoerente, mas apenas de factual, conforme são
as verificações dos sentidos, mesmo quando inesperadas, paradoxais.
Isto quer dizer que não são necessariamente calculáveis
do ponto de vista da lógica, podendo ser até incongruentes
e não desejáveis, pelo fato de estabelecerem conotações
que a mente preferia fossem outras. Por isso é que a mente, ao intervir,
quer anteriormente, quer posteriormente, no elenco das evocações,
assume um comportamento seletivo, em função da qual melhora
a expressão poética.
Ainda semanticamente, alógico poderá significar um procedimento
da razão ao operar acima ou além do seu procedimento normal.
Este acima ou além é posto por alguns (como Bergson) como
uma razão específica, ou quase específica.
Na história da filosofia moderna são conhecidos vários
filósofos que acreditam na existência desta faculdade alógica
e nela fundam seu sistema filosófico arracional ou alógicista.
E geralmente por meio desta razão metalógica explicam a poesia,
e tem como consequência uma interpretação falseada
da da mesma. É o que aconteceu com Bergson ao citar a poesia poesia
como gerada pela intuição da inteligência superior.
O mesmo parece acontecer na rusticidade filosófica de alguns poetas
e críticos literários.
Não há como acreditar em uma tal faculdade excepcional, por
carência de dados. Estes são redutíveis sempre à
razão comum. Ainda que haja procedimentos muito peculiares da mente,
ele se reduzem em última instância a uma só espécie
de conhecimento.
Mas, fica a hipótese deste tipo de alogicismo para quem acreditar
nele e por meio dele desejar explicar a poesia.
629. Há uma participação externa da inteligência
na poesia e que precisa ser determinada. Ainda que o elemento essencial
seja a conotação alógica das imagens, estas conotação
é antecipada pela expressão em prosa do objeto estímulo.
Esta expressão em prosa se exerce como obra procedida pela razão,
ao mesmo modo como qualquer outra operação em prosa. Uma
expressão em prosa opera por meio de imitação (mimese),
cuja interpretação é um trabalho mental. Somente a
inteligência sabe que uma estátua significa um outro objeto,
por exemplo, um herói. Os sentidos tão somente observam a
estátua como algo absoluto. Assim a consideram as aves que pousam
sobre ela.
Constituída, pois, a expressão poética por dois tempos,
no qual o primeiro é o da expressão de um objeto estímulo
de imagens, este primeiro tempo é o momento lógico, que precede
à poesia, ainda que não o objetivo principal da referida
expressão poética. Destinado para a poesia, este momento
lógico pertence à poesia, mas apenas no sentido de lhe oferecer
aquilo, que, no segundo tempo, irá provocar a associatividade.
Pelo visto, o trabalho racional do poeta tem, na prévia construção
da expressão do objeto estímulo, uma complexa participação,
para finalmente atingir a totalidade da construção. Neste
primeiro tempo deverá colocar muito de sua capacidade de raciocínio.
Conforme se dispõem as linhas do fundamento, pode ele gerar as diferentes
possibilidades da sobre-estrutura. Sem adequado trabalho na estruturação
do objeto estímulo, a expressão poética definitiva
não surgirá adequadamente. O sucesso da poesia deverá
estar previsto no fundamento.
No caso da poesia pictórica, o quadro de cores precisa ser manejado
adequadamente a fim de que possa gerar as evocações que estão
nos objetivos de quem se expressa poeticamente.
A estrutura interna do objeto estímulo segue toda a ordem lógica
da prosa. Os conceitos já obedecem a uma ordem de classes. Os juízos
se desdobram em descrições narrativas. Os raciocínios,
passando para mais além dos juízos, podem proceder a longos
discursos, - tudo sempre visando criar o processo gerador da evocação
poética.
630. O ordenamento posterior das evocações, eis onde mais
a inteligência consegue interferir na alogicidade da poesia. Este
ordenamento posterior se observa na poesia literária, quando frases
alógicas se misturam com os expedientes meramente evocativos. Na
verdade, porém, tudo isto já deverá tomar partida
desde a criação do objeto estímulo. A ordenação
posterior ocorre apenas como que exteriormente.
Na pintura a ordenação racional posterior da evocação
poética se dá pela inclusão de expressões de
efeito prosaico, com sentido em si mesmas. Estas não se exercem
evocativamente. A evocação é exercida por outros elementos.
Assim, de para a parte, uns elementos prosaicamente, outros poeticamente,
colaboram para a ordenação geral da expressão total
de uma tela.
Pintam-se, com frequência, casas cujo interesse prosaico se situa
em alguns elementos, os quais interessam em absoluto, aos quais justapõem
outros mais, desta vez com outros poéticos, que apenas, conotam
imagens, sem que em si mesmos despertem interesse.
631. Há também uma participação pós-associativa
da razão, que comparece na poesia depois de concluída a associatividade,
todavia ainda não apreciada.
A participação pós-associativa consiste em entender
a mensagem da associação criada. Também o animal tem
associação de imagens, todavia sem interpretá-las
racionalmente, por lhe faltar o suficiente exercício da razão.
O animal, por falta de sua participação pós-associativa,
não é poeta, apesar de sua extraordinária capacidade
associativa.
Atenda-se para todo o composto do processo do conhecimento humano que se
realiza por sucessões até chegar o nível da razão.
Primeiramente, num primeiro processo, os sentidos vêem a cor; a imaginação
cria a imagem da cor; a memória conserva a imagem da cor no subconsciente,
onde é despertada por um objeto estímulo.
Em um segundo processo a inteligência entende a cor, dela formando
o conceito de cor, o juízo de cor, o raciocínio de cor.
Num terceiro processo, a inteligência também entende a imagem
da cor vinda do subconsciente, de onde surge quando despertada pela associatividade,
conforme acontece na poesia.
Nas sucessões acima mostra-se como a imagem despertada associativamente
pelo objeto estímulo da poesia também é complementada
pela compreensão final exercida pela inteligência. Ora, ali
está última das participações da razão
na poesia.
O animal também percebe as imagens despertadas por associatividade,
mas não as compreende como a participação pós-associativa
que é exercida pela razão humana.
632. Pelo exposto até aqui, a participação da inteligência
na poesia, apesar de esta ser expressionalmente alógica, se dá
por três procedimentos: expressão prosaica do objeto estímulo,
ordenamente exterior das evocações, compreensão intelectual
pós-associativa das imagens poéticas.
O pintor, no exercício poético de sua expressão mediante
cores, exerce uma atividade intelectual intensa em torno das evocações
que maneja. Quanto melhor consciência tiver das participações
da mente na poesia pictórica, seu trabalho será mais crítico
e eficaz.
A participação da inteligência não substitui
a evocação, mas dela tirará o melhor partido possível.
Se esta evocação faltar, o trabalho da mente não poderá
solucionar o caso essencialmente. Mas, no caso de faltar a evocação,
o trabalho da inteligência dirá desta falta, e o pintor irá
para outra tentativa, com a esperança de encontrar um objeto evocativo.
No caso de ser pouca a evocação, a inteligência dela
tirará o melhor proveito possível, bem como também
tentará evocações mais expressivas,. Para isso contará
com a capacidade crítica de sua mente, que para isto foi preparada,
aprendendo quais são as participações da razão
na poesia.
633. Inspiração poética é aquele momento
de percepção em que o poeta seleciona o instrumento exato
capaz de exercer a evocação que ele tem em vista.
A inspiração já ocorre na mente, a qual, atendendo
ao objeto estímulo de imagens, fixa qual o objeto que as estimula
e quais são os significados das imagens em si mesmas. Depois a expressão
poética mental é transposta à expressão exterior,
ou seja à obra de arte, como de palavra, pintura, escultura, música.
Não se trata de expressão de expressão, mas de expressar
o mesmo objeto por meio de outra expressão que também o exprime.
Todavia, a sequência das expressões principia sempre pela
da mente, sem a qual não temos conhecimento dos objetos. Uma vez
atingidos os objetos, a estes exprimirão as artes.
Mais detalhadamente, - a inspiração é um procedimento
mental, à maneira de um juízo. Na inspiração,
como em todo o juízo, se faz pois a comparação entre
termos, até que se encontrem aqueles que se unem e podem por conseguinte
ser afirmados um do outro. Neste sentido, a inspiração é
sempre um juízo. Enquanto a inspiração demora, é
o juízo que não se consegue formular.
Todo o juízo é uma comparação, em que os elementos
são primeiramente procurados, depois comparados e finalmente afirmados.
Também se pode dizer que a inspiração é uma
seleção, neste sentido que rejeita o que não funciona
e escolhe o que finalmente serve.
A inspiração é também uma pergunta enquanto
está em andamento. A pergunta é senão um juízo
que se está formando pela via da comparação de termos.
A inspiração é complexa na poesia, porque ela ainda
atende a diferentes operações através das quais a
associatividade se dá. Disto cuidaremos logo adiante, abordando
a associatividade pelas suas três modalidades operacionais - vivência,
semelhança, contraste.
Aqui apenas advertimos que a inspiração poética escolhe
o procedimento viável, seja a nível de vivência, seja
a nível de semelhança, seja a nível de contraste.
634. O estado de espírito influencia a evocação, que
não é a mesma em espíritos normais e nos deficientes,
ainda que geniais.
Com certa raridade, encontram-se nos doentes psíquicos artistas
excepcionais. Esta circunstância lhes pode exacerbar o mundo subconsciente
das imagens e criar obras verdadeiramente admiráveis como foram
as do delirante Van Gogh. É sabido que poetas doentes, estimulados
pela tuberculose pulmonar, compuseram versos os mais expressivos.
Mas eles não criam toda a arte, e por isso são necessários
também os geniais artistas normais. Foram artistas certamente de
grande saúde mental, para a arte da linguagem, que inspirou a pintura,
os poetas Homero e Dante.
Na Renascença se destacaram pela sua robustez mental os pintores
Da Vinci, Rafael, Boticelli, e sobretudo Miguel Ângelo.
No período barroco se admira a saúde mental de Rubens, com
seu modo de exprimir sempre poderoso, quer no vigor físico das suas
gordas figuras femininas, quer na potência da virilidade dos seus
homens robustos.
Na arte contemporânea se destaca de novo, por exemplo, a saúde
mental das representações de Renoir, Rodin, Picasso, Kandinski,
Portinari.
Quanto aos medíocres, o desequilíbrio psíquico por
vezes os excita de tal modo, que nesta quase paranormalidade, criam obras
inúmeras, em que eventualmente no meio da palha surgem aquelas que
se recolhem como apreciáveis. A fama destas permite que vendam também
as demais, principalmente para aqueles que, pela sua burrice, têm
vocação de comer capim.
Os poetas doentios exploram geralmente a dor, porque somente dela possuem
grande vivência, em geral muito dramática. Os que superam
a mediocridade, atingem ao menos a dor universal. Então, em vez
de se ocuparem com sua própria dor, passam à dor de sua classe,
de seu grupo, de sua nação, finalmente à dor da humanidade
e até mesmo do universo, nos termos da filosofia de Schoppenhauer.
Admirem-se tais poetas, mas normalmente não sejam imitados. A poesia
é um estado normal do homem, e não o estado peculiar apenas
de paranormais.
Não pode uma temática integral manter seus limites ao que
a experiência de vidas mal vividas consegue expressar. Tais limitações
são próprias de uma arte vertida apenas situações
subjetivas eventuais, sobretudo a destes homens, que observam as coisas
secundum quid, isto é, segundo as evocações
de que são capazes. Em vista de serem incapazes para uma temática
integral, não produzem uma arte verdadeiramente grande.
Somente o homem normal é artista pleno. Ainda que nem todo o homem
normal tenha os dotes para grande artista, é no circulo do homem
normal que se espera apareçam os maiores nomes da arte, o que o
futuro relembrará como protótipos de uma época.
Os demais ficarão para a história simplesmente, isto é,
apenas como precursores de certas experiências. A arte verdadeiramente
grande não atola ao longo dos caminhos do tempo. Falando a todos
os tempos, a grande arte sempre será relembrada, sobretudo quando
for verdadeiramente poética.
635. Concluindo sobre a essência da poesia, pensamos haver
estabelecido que seu expressar essencial procede mediante associatividade;
mais especificamente, na a poesia pictórica é a que, a partir
das cores, evoca o seu objeto. Distingue-se da prosa, a qual opera imitando
diretamente ao objeto significado.
E assim pensamos haver deixado claro que a alogicidade é apenas
uma propriedade da poesia, a qual pode por ela se identificada e apreciada,
todavia não essencialmente definida.
ART. 2o.
OPERAÇÕES ASSOCIATIVAS DA POESIA.
3911y637.
638. A conexão, em virtude da qual um objeto evocativo-poético
suscita o despertar de uma imagem, se pode dar por três modalidades
operativas:
- a vivência (ou contiguidade),
- a semelhança,
- o contraste.
Dali decorrem três modelos operativos de poesia. A partir deles redividimos
didaticamente o presente artigo sobre as operações da poesia,
em três parágrafos; a eles convém acrescer mais outro
sobre o ritmo operacional destas mesmas operações:
- Poesia operada por vivência (§ 1). (vd 641);
- Poesia operada por semelhança (§ 2). (vd 647);
- Poesia operada por contraste (§ 3). (vd 652);
- O ritmo nas operações poéticas (§ 4) (vd
656).
639. As leis da associação das imagens já foram
estudadas por Aristóteles. Desde sempre foram espontaneamente praticadas
na poesia. Estudadas teoricamente, contribuem para melhor entender o processo
e para enfim aperfeiçoá-lo.
Um objeto estímulo, desde que apresentado, por exemplo pela pintura
do mesmo, desperta imagens, - ou porque elas foram vividas junto com este
objeto e a ele se associaram; - ou porque são semelhantes a ele
e tomam como que o seu lugar tornando-se equivalentes; - ou porque pelo
contraste como que se ligam como faces opostas da mesma linha.
A pintura poética não faz operacionalmente senão representar
objetos que estejam ligados, ou por vivência, ou por semelhança,
ou por contraste. Desenvolver operacionalmente a poesia da arte que opera
com cores é nada mais, nada menos que agilizar a expressão
de objetos com conotações geradas por vivência, semelhança
e contraste.
Quando do estudo das cores do ponto de vista psicodinâmico (cap.
2-o, art. 4), foram adiantadas muitas considerações sobre
a associatividade exercida por cada uma, isto é, pelo azul, amarelo,
verde, etc.
Agora coordenamos este mesmo temário com vistas à consideração
de sua função operacional na poesia.
§1.
Poesia operada por vivência.
3911y641.
642. Os objetos, quando estão postos em contiguidade, e passam assim
a ser percebidos pelos sentidos, suas imagem também ficam ligadas
entre si, na memória, ou no subconsciente.
Em outra oportunidade ao ser despertada diretamente a imagem de um deles,
mediante um objeto estímulo apresentado novamente pelo sentido exterior,
não somente ressurge a imagem daquele objeto equivalente ao objeto
estímulo, mas se restabelecem também as imagens dos demais.
A evocação portanto acontece, porque na primeira oportunidade
em que os referidos objetos estavam sendo vividos juntos, a faculdade da
imaginação os fotografou em um contexto único, formando
como que um quadro de família. Agora, não é possível
mais retirar do arquivo a imagem de um dos objetos, sem que venha todo
o conjunto do quadro.
O poeta se aproveita do fenômeno associativo das imagens para expressar-se
de maneira mais ampla. Um objeto estímulo traz para a superfície
da lembrança todo um arquivo de recordações.
Além disto, o fenômeno do processo associativo por vivência
favorece a recordação do que hoje ha não existe ou
do que se encontra distante.
A poesia por associação de vivência, denominada
também de contiguidade, é peculiar sobretudo para
expressar a saudade. É a saudade um sentimento de algo bom
que somente resta no passado, e que continuamos usufruindo no presente
pela simples lembrança, que pode ser recordada desta forma por objetos
estímulos. A saudade é quase sempre um estado de poesia.
A evocação por vivência ou contiguidade é muito
frequente na pintura, porque as cores são vividas em circunstâncias
bem definidas, quer quanto ao tempo, quer quanto ao lugar. Basta então
indicar um objeto colorido e prontamente ele associa outras e outras situações.
O azul sempre presente no céu, conota a este quando o azul estiver
em outro espaço.
Associam-se as cores com os estados de espírito que sua psicodinâmica
usualmente gera.
O azul, por exemplo, de fraca luminosidade, psicodinamicamente sereno,
sugere a paz.
O vermelho, se associa por contiguidade, com a violência; por ser
de luminosidade intensa, o vermelho pode nesta condição associar
também a vida, o agrado sexual, a riqueza das manifestações
festivas.
A cor rara conota mais eficazmente as imagens a ele relacionadas por contiguidade.
O vermelho, por exemplo das flores, ocupa menos espaço na natureza
dominada pelo verde. Por isso o vermelho se exerce com poder evocativo
considerável, comparável à rima rara na literatura.
A sensação sinestésica conota facilmente com a visão
do corpo em pé. O linearismo da pintura de Botticelli explora o
cenestésico, tirando o corpo da linha de equilíbrio, simulando
leveza da dança.
643. Na poesia à base da associação por vivência
se complementa com o contexto desta vivência.
Diz-se que na apreciação da poesia importa conhecer o poeta.
Isto vale sobretudo na modalidade de poesia por conotação
de vivência.
No caso das cores, efetivamente a variação conotativa destas
exige considerável apoio no contexto quando a expressão poética
funciona à base da vivência, em vista da eventual desigualdade
com que essa vivência se forma nos diferentes indivíduos.
Basta ligeira estatística e prontamente o constatamos.
Em vista da variabilidade da vivência, a apreciação
da expressão poética em cores deverá ficar atenta
ao que é maioria, bem como definir bem o contexto. Por causa desta
variabilidade vivencial, a mesma cor situada em contexto oposto poderá
associar o inverso.
644. Os sentidos inferiores, pela sua índole menos definida,
surpreendem pela variedade consequente de suas conotações
com a cor.
O paladar, ou seja o gosto, se deixa influenciar mui variadamente pela
cor das comidas, que podem ser amargas, azedas, salgadas, doces. O amargo
se associa mais ao amarelo e ao verde, mas ainda bastante ao preto, já
muito menos ao marrom e ao roxo.
Evita-se, pois, a associação com o amargo, enveredando para
outras cores, que não o amarelo, verde, preto, senão também
o marrom e o roxo. É possível que o amargo se associe por
vivência com o verde por causa do verde da bílis e do amargo
das frutas verdes.
O azedo é associado dominantemente com o verde. Muito depois pelo
amarelo, praticamente nada pelo vermelho, roxo, azul, preto. Certamente
a vivência do azedo com o verde se deve em grande parte pela cor
verde das frutas na fase em que elas se manifestam azedas.
O doce e o salgado se associam ambos em primeiro lugar com o branco. Na
vivência doce do branco influi certamente a psicodinâmica da
riqueza da luz banca que brilha normalmente sobre todas as coisas.
Mas, o branco do açúcar também muito influencia a
vivência doce do branco.
De outra parte, o branco associando-se ao salgado, quando em seu devido
contexto, se deve mais à vivência pura e simplesmente, em
virtude da cor do sal, do que à psicodinâmica do branco. Esta
psicodinâmica do branco leva antes a associar o doce, do que o amargo.
Em virtude da normalidade do doce ele também se associa bastante
ao azul. Este o azul se associa ao que está normal, como em céu
azul.
645. A diversidade da vivência associativa, inclusive da cor, é
muito influenciada pelos sentidos inferiores.
As pessoas, sobretudo as mais rústicas e menos desenvolvidas, apreciam
os sabores com associações de vivência com a cor dos
objetos que os causam. Por isso, o verde tende a associar o azedo (das
frutas verdes), e o branco o doce (do açúcar), bem como o
salgado (do sal).
Na medida que as pessoas apuram seu paladar, ele se desprende das vivências
comuns, - mas não de todo, - para atender à psicodinâmica
do gosto pura e simplesmente; na mesma proporção associam
as cores a gostos com psicodinâmica correspondente. Esta tendência
é perfeitamente compreensível e é constatada pelas
estatística.
Já se vê como o artista pintor deverá estar atento
a um contexto subtil e amplo quando exerce a poesia através de uma
operação fundada na associatividade por vivência.
Deverá estar atento sobretudo com as vivências, quando estas
se dão com os sentidos inferiores, como por exemplo com o do paladar.
§2.
Poesia operada por semelhança.
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648. A semelhança tem como propriedade indicar diretamente
o seu objeto assemelhado. Nestas condições lógicas
o semelhante é a expressão do seu assemelhado. Até
aqui ocorre a mimese, como procedimento específico da expressão
em prosa.
Mas a semelhança também opera por associatividade. Eis quando
ocorre uma operação típica da poesia, e que amplia
o leque de capacidade da expressão por semelhança.
Portanto, uma semelhança pode ser interpretada pela razão,
ao modo de mimese, gerando então a arte em prosa. A esta semelhança
prosaica se junta a semelhança poética, a qual gera associações
imaginativas.
649. A associatividade por semelhança, sobretudo em cores e formas,
é a mais universal no que se refere à interpretação,
dispensando notoriamente o contexto, pelo menos muito mais que a associatividade
por vivência.
Um objeto, ao ser conhecido, estimula o despertar de imagens do subconsciente
que lhe sejam similares, não somente as que sejam rigorosamente
idênticas. Os elementos coincidentes, para que despertem uma imagem,
não precisam atuar todos. Consequentemente, o objeto estímulo
provoca o surgimento conotativo de um leque de imagens, as que lhe são
iguais, como ainda as que contém até uma certa porcentagem
de elementos idênticos.
A pintura, ao apresentar seus objetos, ainda que eles se ofereçam
com contornos definidos, fazem como que rebrilhar em torno um halo definido
de imagens; as vezes estas imagens são mais fulgurantes, como se
fossem aqueles raios que refletem dos cristais colocados ao sol. Pintar
assim, é fazer pintura com poesia. Quase sempre a pintura é
assim. Sendo onipresentes nunca deixam as cores de encontrar alguma semelhança,
em consequência do que despertam imagens, criando halos de conotações
e lembranças. Esta universalidade poética da pintura se deve
antes de tudo à associatividade por semelhança, porque, conforme
dissemos, as cores encontram por toda a parte as suas cores semelhantes.
650. Aliada sempre ao desenho, a pintura prossegue no seu trabalho
de expressar-se com semelhanças de efeitos associativos.
Pela via do desenho ordena-se todo o quadro, que se converte com ele, ora
num jardim de flores do qual evoluem conotações, ora numa
roda de crianças do qual estrugem as evocações como
gritos de alegria, ora num panorama de motivos da natureza do qual resplendem
associações contundentes, ora num cosmos de astros que no
espaço silencioso perguntam pelo seu próprio mistério.
A Tempestade de Giorgione é um redemoinho de imagens que
não se encontram nem nas cores, nem nos traços da grande
tela; levantam-se na imaginação ao sopro do vento que agita
o espaço e os objetos ali representados.
§3.
Poesia operada por contraste.
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653. O processo associativo por contraste é complexo. Cada
um dos objetos contrastados desperta de seu lado imagens. Há uma
oposição, isto é, de choque entre os termos.
A seguir mais uma vez poderá haver um choque entre as imagens evocadas.
Considerem-se alguns contrastes: preto e branco, pedra e pó, jovem
e velho, grande e pequeno, belo e feio, rico e pobre, perfeito e estragado,
guerra e paz, sereno e agitado, morto e vivo, anguloso e redondo, triste
e alegre, riso e choro.
Na compreensão da poesia por associação de contraste
importa também a participação da inteligência.
O choque primeiramente entre os termos contrastados e depois entre as imagens
resultantes já é uma percepção da inteligência.
Na composição - flores que enfeitam a vida e flores que enfeitam
a morte, - há evocações na primeira instância
(a vida) e evocações na segunda instância (a morte).
O chocante entre uma e outra situação escapa ao processo
associativo, mas é avaliado pela mente.
654. Em alguns gêneros de expressão, como no moral
e social, a evocação por contraste é uma constante.
Mas em todos eles a expressões é exercida com eficiência,
isto é, com resultado.
Efetivamente o contraste define bem as colocações, e consequentemente
adverte para a mensagem precisa em tela.
É apreciável, neste sentido, de Goya, a coleção
de gravuras Desastres da Guerra, dentre as quais se destaca Populacho,
de um realismo chocante.
§4.
O ritmo nas operações poéticas.
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657. Ritmo e poesia. Ocorre o ritmo quando elementos distintos,
- denominadas partes, - entram em sucessão e estão sob a
medida de um tempo determinado.
Em princípio, o movimento não é uma qualidade que
por si só seja capaz de se tornar portador de expressão.
Os elementos, ou partes, é que estão em movimento.
No ritmo da poesia as partes operadas são os objetos estímulos,
operando por vivência, semelhança, contraste.
Na medida que estes elementos expressionais se sucedam numa velocidade
menor ou maior, poderão gerar associações, isto é,
a poesia.
E ainda poderão ser modulados em seu movimento, quer em menor e
maior velocidade, quer ainda ordenados por meio de tônicas, assim
gerando as mais variadas modalidades de expressão poética.
Há sucessões reais, como as cores que se substituem na sequência
temporal da marcha do cinema e da televisão. E há sucessões
subjetivas, como a da vista que percorre a sequência das cores.
Esta sequência subjetiva pode associar-se ainda ao cenestésico,
como no linearismo das figuras de Botticelli.
658. Facilita-se o ritmo das cores, quer em prosa, quer em poesia, quando
é operada em combinação com os materiais de outras
artes, sobretudo da forma, onde o destaque é o desenho, o plano
e o volume.
O desenho define notoriamente as partes em sucessão, mais fácil
do que as cores o fazem por si sós.
Todavia, na colocação das cores em uma tela, como em qualquer
outra composição, obedece também estas sustentam um
ritmo subtil, a partir do qual se geram conotações poéticas.
659. O ritmo da pintura e de todas as formas de expressão em cor
se processa mais visivelmente pela via da forma plástica, começando,
como já se adiantou, pelo desenho. Favorece o desenho a determinação
das sucessões pictóricas.
A composição artística, que reúne num todo
integrado os elementos de uma representação, requer ordem
interna, em que as partes desenrolam um certo ritmo, de que resulta principalmente
a evocação poética.
O futurismo em pintura é uma combinação de
cores e formas do desenho, que destacam o movimento e, através dos
elementos em sucessão, criam a evocação poética.
A pintura concretista (vd 370)
é uma aliança de artes, em que a cor surge como componente
principal; exerce-se a expressão em cor em uma composição
em que participam também outras artes, principalmente a forma plástica
(linha, área, volume). Como se sabe, o concretismo foi apreciado
também como estilo (vd 978).
Podem acrescer-se à pintura concretista, a linguagem e a música,
sendo porém a participação destas uma junção
menos intima.
660. Concluindo sobre a natureza e operações poéticas,
tendo por referencial a arte pictórica, pensamos ter deixado claro:
- que a poesia é essencialmente uma expressão por meio da
associatividade;
- que tem por propriedade ser alógica, porquanto a associatividade
não é uma operação mental e sim do mundo da
imagem sensível;
- que, finalmente as operações da poesia são de vivência,
semelhança, contraste, e tudo isto operado nas medidas de certo
ritmo preferencial, em que as cores são controláveis sobretudo
quando operadas ao mesmo tempo aliadas com os materiais de outras artes,
sobretudo da plástica do desenho.

