840. Introdução. O positivismo é um rótulo novo, para uma nova fase de desenvolvimento do empirismo. Nasceu o nome em 1830 na Escola do socialista utópico Saint-Simon (1760-1825), e ganhou fortuna com Augusto Comte, o pensador protótipo do movimento, sobretudo na França. Derivado do latim positum (= posto, o que está posto diante, situado), significa descritivamente o que se observa, ou experimenta.
Há motivos presentes no criticismo de Kant, que favoreceram ao positivismo. Ao publicar a Crítica da razão pura (1781), lançou barreiras às pretensões da metafísica. Em reduzindo os universais a uma validade apriorística, meramente formal, no recinto do entendimento, nada mais resta de verdadeiramente apreciável na filosofia racionalista. O positivismo deu mais um passo, reduzindo o conhecimento ao experimentável, o que na prática significa uma consideração das relações extrínsecas entre as coisas, sem que estas relações possam ser consideradas intrinsecamente, como nas ciências positivas.
O progresso das ciências experimentais prestigiou
o positivismo. Lavoisier (1743-1793) desenvolvera a química; Bichat
(1771-1802) fizera progredir a biologia; descobrem-se argumentos para o
evolucionismo das espécies vivas, com o resultado de uma nova mundivisão,
que espantava aos teólogos tradicionais; os astros são vistos
a girar num céu cada vez menos sacral; o desenvolvimento das ciências
sociais à base da observação dos fatos reduziu a situações
meramente culturais estruturas anteriormente consideradas naturais. Estes
e outros aspectos da modernidade vieram criar um clima favorável
ao positivismo, que portanto desenvoltamente proclamou a importância
dos métodos experimentais e advertiu para as limitações
da filosofia racionalista, sobretudo da racionalista de idéias de
todo autônomas da experiência.
841. Divisão. Para ordenar didaticamente o estudo do positivismo importa atender primeiramente à sua periodização temporal e fases de desenvolvimento, porquanto história é acima de tudo cronologia. Importa ainda destacar diferenciações de conteúdo, porquanto aconteceram logo diferenciações profundas na formulação interna do sistema; em consequência resultaram denominações diversas, além da distribuição geográfica dos seus representantes.
a). A periodização do positivismo,
como acontecimento do segundo período da filosofia moderna, enquanto
distinto do empirismo anterior, está em que, como um todo, o movimento
se oferece com muito mais volume, tanto espacial, como qualitativo. O primeiro
período da filosofia moderna foi eminentemente racionalista, destacando-se
especialmente o racionalismo cartesiano, com as suas mais diversas formas.
Entretanto, no seu final decaía fortemente em favor do empirismo,
sendo o enciclopedismo na França uma de suas manifestações.
Por isso, na França se pode mesmo falar em precursores do positivismo,
como efetivamente o foram Mostesquieu (1689-1755) e Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778). O segundo período da filosofia moderna, ainda que inicializado
pelo racionalismo de Kant, é muito mais empirista que o primeiro;
os dois campos, - racionalismo e empirismo, - se conflitam mais fortemente.
A força do empirismo se revela também na multiplicidade de
suas denominações, porquanto é citado também
como positivismo, neopositivismo, pragmatismo, neo-realismo, filosofia
analítica, e ainda por expressões como behaviorismo, funcionalismo
e similares.
Ainda que o segundo período da filosofia
moderna tenha sido inicializado pelas mudanças internas do próprio
racionalismo, que de cartesiano passa a ser kantiano, também o empirismo
contribuiu para esta distinção entre primeiro e segundo períodos.
Um dos elementos desta diferença está exatamente no crescimento
do empirismo, que passa a estar presente em toda a parte. Outro destes
elementos é o desenvolvimento interno do empirismo, que assume novas
formas.
b). Do ponto de vista meramente geográfico,
implantou-se o positivismo na primeira parte do século dezenove,
na França, quando na década de 1830, Augusto Comte inaugurou
seu Curso de filosofia positiva. A rigor, trata-se de um novo estágio
do enciclopedismo anterior. Na segunda parte do século o estágio
de crescimento do positivismo já se encontra apreciável,
e até com duas alas, a ortodoxa, com Pierre Lafitte (18281881),
a dissidente, com Emilio Littré (1801-1881), Hipólito
Taine (1828-1893), Emílio Durkheim(1858-1917), sociólogo
e filósofo da educação. Afim a este movimento se encontra
o materialismo, geralmente monista; cita-se, na França, entre outros
Le Dantec.
O mesmo acontece na Inglaterra. Na continuidade
do empirismo anterior, um novo empirismo acontece, ao qual com frequência
se denomina positivismo inglês. Grandes nomes do positivismo inglês:
John Stuart Mill (1806-1873), Herbert Spencer (1820-1903). Surgirá
na Inglaterra também um forte racionalismo idealista, com o qual
os empiristas ingleses tiveram que travar luta difícil.
Igualmente na Alemanha, o positivismo criou uma lateral ao racionalismo, desenvolvendo inclusive notoriamente a psicologia experimental e as ciências sociais em geral. Esteve o positivismo alemão em pouco contato inicial com o francês, mais com o inglês, notando-se bastante a influência remota do empirismo de Hume. Nomes do positivismo alemão: Ernesto Laas (1837-1885), Guilherme Schuppe (1836-1913), Ricardo Avenarius (1843-1896), Ernest Mach (1838-1916), além das formas combinadas com o evolucionismo, materialismo, monismo, em que avulta Ernst Haeckel (1834-1919), ou ainda da psicologia experimental, onde o nome a considerar é Gustav Fechner (1801-1887). Também na Alemanha cresce o monismo materialista em afinidade com o positivismo.
Diferentemente do anterior empirismo da Inglaterra,
que fora um fenômeno relativamente regionalizado primeiramente neste
país, depois com extensão para a França, o positivismo
rapidamente se expandiu pelo mundo, universalizando-se. Aproveitou o embalo
que vinha do anterior empirismo, e mais os estímulos provenientes
do criticismo kantiano contra a metafísica e a animação
dos resultados das ciências naturais.
c). Diferencia-se internamente o sistema do positivismo em pelo menos três diretrizes, a cientifica ou cientificista, a psicológica ou psicologista, a sociológica ou sociologista. Agora a questão do positivismo começa a se apresentar difícil para o historiador, até porque nomes como psilogismo podem assumir vários significados, o mesmo ocorrendo com cientificismo e sociologismo; enfim, até mesmo o nome positivismo poderá se tomado num sentido vasto, arrolando então mais e mais denominações, como por exemplo, pragmatismo, neo-positivismo e similares. Se se atender ao mesmo tempo a uma divisão geográfica, se notará que certas diferenças de conteúdo ocorrem mais em uns países, e não em outros.
O positivismo de orientação científica se destaca pela atenção à divisão das ciências. Preocupa-se com o fundamental, e portanto com o meramente físico; neste campo progridem especialmente os positivistas a nível de materialismo e evolucionismo. Na França o positivismo científico ocorre no mesmo Comte, como ainda no materialista Le Dantec; na Inglaterra é o caso do monismo evolucionista de Spencer e de Darwin. Na Alemanha o nome lembrado é o de Haeckel.
Já o positivismo de orientação psicológica realça ao homem como sendo de uma natureza especial. Eis quando na França avulta o nome de Taine; na Inglaterra o de Stuart Mill; na Alemanha o de Wilhelm Wundt.
Enfim, o positivismo de orientação sociológica se preocupa com a interação social dos homens a viverem em sociedade, tornando-se como que o produto da mesma. Eis a condição típica do positivismo de E. Durkheim.
Curiosamente Comte, vítima de situações psíquicas, não considerou a psicologia como objeto de uma ciência específica. Mas será a psicologia que marcou a primeira grande diferença de diretriz no positivismo. Em 1878 Wundt criará na Alemanha um primeiro laboratório de psicologia em Leipzig, logo imitado por toda a parte. Ainda que a psicologia experimental, como ciência positiva, não implique em posição filosofica, ela amparou uma diretriz no positivismo, que por sua vez se redividiu em Escola Inglesa, na qual se destacou Stuart Mill, Escola alemã ou matemática, peculiar de Wundt, escola francesa ou dinamista, de Theodule Ribot.
Finalmente aconteceu um positivismo, colocando em destaque o elemento social do homem, e que veio a ser conhecido pelo nome de sociologismo, inicializando na década de 1890 na França, com Emil Durkheim (vd).
d). Admite-se o seguinte arranjo didático, dominantemente geográfico:
I - Comte e positivismo
comtiano. 2216y843.
843. Auguste Comte (1798-1857). Filósofo francês, nascido em Montpellier. Desacreditou da fé católica aos 14 anos. Estudou de 1814 a 1816 na Escola Politécnica de Paris. Expulso por participar de um motim dos alunos, num tempo que estava sob a sensibilidade das mudanças políticas pós-napoleônicas. Retornou a Montpellier, onde por curto tempo estudou medicina. Em 1817 de novo em Paris, passou a se manter ministrando aulas e escrevendo para jornais. Por algum tempo foi secretário de um banqueiro. De 1818 a 1824 colaborou com o socialista utópico Conde de Saint-Simon, do qual enfim se tornou secretário. Casou em 1825 com Carolina Massin. Deu começo em 2 de abril de 1826 a um curso público de filosofia positiva. Logo abandonado pela mulher, sofreu perturbações mentais, suspendendo o curso, o qual todavia retomou em 1829, mantendo-o até 1842, ao mesmo tempo que o publicou. Em 1944 se ligou a Matilde de Vaux. Morrendo esta em 1846, seu amor platônico se transformou em misticismo, com a consequente fundação da humanidade em 1852, encontrando em Pierre Lafitte (vd) seu principal colaborador.
Fez-se Comte conhecer como fundador do positivismo e da sociologia. É o positivismo uma nova forma do empirismo, que agora assume a veste de um novo nome e se ordena em síntese ampla. Tal como já o empirismo, o positivismo se retém naquilo que não ultrapassa à superfície das coisas que se experimentem; afasta-se de conceitos meramente racionais, como, por exemplo, o de substância. Com isso ficaram eliminadas a metafísica e a psicologia racional.
Classificou Comte as ciências pelo objeto. Em consequência abandonou classificação subjetiva pelas faculdades introduzida por F. Bacon (vd) e que fora ainda divulgada pela Enciclopédia Francesa. Por sua vez o objeto foi ordenado pela ordem de generalidade decrescente, estabelecendo-se consequentemente a matemática no topo (ou na base) das ciências positivas. Depois vem a astronomia, a física, a química, a biologia e a sociologia, com objetos progressivamente menos gerais, todavia mais complexos. A descida ao cada vez menos geral pode resultar em divisões materiais; não suficientemente atento a esta questão dividiu Conte ciências, como a física, a astronomia, a geografia, que efetivamente não se diferenciam por esta via. A sociologia de Comte, como ciência positiva, se prende à filosofia apenas na sua caracterização meramente formal. Em si mesma a sociologia somente afeta à filosofia, quando se trata de defini-la e lhe discutir os métodos. Então ela é a ciência que tem por objeto a interação social; advertir para este objeto de estudo, Comte teve certamente um grande mérito, ainda que tal estudo em parte sempre houvesse sido realizado. No atinente ao método, faz-se o reparo, que Comte ao dividi-la usou de expressões analógicas, e que podem inadvertidamente ser tomadas pelo sentido inadequado. Ao denominá-la física social, e ao dividi-la em estática social e dinâmica social, usou uma linguagem que somente é válida em sentido analógico; usada em sentido próprio poderá acarretar equívocos.
Em si mesma, a sociologia, como ciência positiva que é, escapa à filosofia; mas não deixa de ser curiosa teoria comtiana da evolução da humanidade por três estágios: teológico, metafísico, científico. Eis uma hipótese, cuja validade depende da observação positiva. Contudo indiretamente ela também depende da teologia, da filosofia, da ciência, as quais precisam primeiramente acontecer, para depois se determinar como historicamente aconteceram.
Preconizou Comte uma nova religião, a da humanidade, em que os sacerdotes são os cientistas. Também aqui ocorreu uma aproximação exagerada entre coisas apenas analógicas. Importa, entretanto, enaltecer o alto respeito de Comte pela Humanidade, ao ponto de elevá-la à condição de objeto de culto. Em princípio as coisas têm um certo direito à sua individualidade, cujo respeito é uma espécie de culto. O verdadeiro culto à Deus não é a relação entre servo e senhor, mas o respeito à posição de Deus no todo; assim, importa respeitar os indivíduos, a nação e finalmente à humanidade. Não importa apenas o patriotismo no sentido nacional; o mais completo patriotismo é também humanitário, e o foi onde Comte se antecipou à tendência atual de globalização, ainda que fosse exageradamente enfático na linguagem usada.
Com referência ainda ao misticismo de Comte, referiu-se à Humanidade como o Grande Ser, - Grand Être, como objeto principal do culto. São objetos de veneração também o Grande meio, - o espaço, - e o Grande Fetiche, - a terra. Juntos constituem a trindade positiva. Acresceu ainda variados símbolos, - calendário próprio, sacerdotes, pontífices, altares, sacramentos. Em consequência se multiplicaram as sociedades positivistas no mundo, com os respectivos templos, em que até o número de degraus de acesso contém simbolismos. Outros grupos se deixaram mesmo afetar por iniciativas similares, como foi o caso dos admiradores de Haeckel.
Obras: Planos de trabalhos científicos para reorganizar a sociedade (Plan des travaux scientifiques pour réorganizer la société, 1822); Curso de filosofia positiva (Cours du philosophie positive, 6 vols., 1830-1842), obra principal; Discurso sobre o espírito positivo (Discours sur l'esprit positive, 1844); Discurso sobre o conjunto do positivismo (Discours sur l'ensemble du positivisme, 1948), reunindo no 4-o volume 6 opúsculos editados de 1819 a 1828; Sistema de política positiva, instituindo a religião da humanidade (Système du politique positive, instituant la réligion d'Humanité, 4 vols.,1851-1854); Catecismo positivista, ou sumária exposição da religião da humanidade (Catechisme positiviste, ou sommaire exposition de la religion universelle, 1852); Síntese subjetiva, ou sistema universal de concepções próprias ao estado normal da Humanidade (Synthèse subjective, ou système universel des conceptions propres à l'état normal de l'Humanité, 1856). Póstumos: Escritos de juventude 1816-1828, seguidos de Memória sobre a cosmogonia de La Place (Écrits de jeunesse 1816-1828, suivis de Mémoire sur la cosmogonie de Laplace 1835, ed. 1970); Correspondência geral e confissões (Correspondence générale et confessions, 2 vols., 1973).
II - Positivismo na França.
2216y844.
844. Teve Comte imediata aceitação, sobretudo nos meios empiristas. Como um todo cronológico este positivismo imediato a Comte se situa na segunda metade do século 19, tendo continuação no seguinte.
Mas ao desenvolver o misticismo em torno das teses defendidas, sobretudo no que se refere ao culto à humanidade, Comte encontrou restrições, que resultou na conhecida divisão entre positivistas ortodoxos, que o aceitaram, e os dissidentes, que permaneceram nas idéias iniciais, expressas principalmente no Curso de filosofia positiva. Como estes últimos, os dissidentes, formaram a maioria, ou a melhor qualidade, eles acabaram sendo denominados simplesmente os positivistas.
Didaticamente se usa começar pelos positivistas
ortodoxos, sobre os quais não se usa alongar. Na França estão
representados por Pierre Lafitte (1823-1903), considerado sucessor imediato
de Comte; na Inglaterra por R.Congreve (1818-1899); no Brasil, Rio de Janeiro,
por Miguel Lemos (1854-1917).
Apesar da distância entre um outro, acontece
alguma analogia entre o positivismo ortodoxo e o espiritualismo eclético
francês ocorrido na França do século 19. Assim também
se consegue ver alguma analogia entre a sociedade espírita fundada
em Paris por Allan Kardec a partir de seus estudos do psiquismo.
Atentos também à distinção entre positivismo científico, psicológico, sociológico, importa advertir que na França o representante do positivismo científico é o próprio Comte; ao positivismo científico são redutíveis os materialistas, como Le Dantec. O positivismo francês da corrente psicológica está representado por uma legião de nomes. Um dos primeiros é H. Taine, sempre citado primeiramente como dissidente. O mais significativo é certamente Théodule Ribot (1839-1916) (vd). Outros: Alfred Binet (1857-1911), Pierre Janet (1859-1947), Jean Paulhan (1884-1968), Alfred Fouillée (1838-1912).
O positivismo francês de fundo sociológico,
ou sociologista - que destaca o elemento social na definição
do homem, tem seus precursores, ou melhor, inspiradores em Ernesto Renan
(1823-1892) (vd) e Gabriel Tarde (1843-1904), este autor de As leis
da imitação (Les lois de l'immitation, 1890),
A lógica social (La logique sociale, 1893), A oposição
universal (L'opposition universelle, 1897), As leis sociais
(Les lois sociales, 1898). O sociologismo positivista surgiu
na França na década de 1890 e teve como representante típico
Emile Durkheim (1858-1917) (vd). Ao grupo pertencem L. Lévy-Bruhl
(1857-1939), Marcel Mauss (1872-1951), Paul Fauconnet (1874-1938), Celestin
Bouglé (1870-1940), Maurice Halbwachs (1877-1945).
845. Pierre Lafitte (1823-1903). Filósofo francês, nascido em Béguey, Gironde. Inicialmente professor de matemáticos, a partir de 1892 professor de história das ciências, do Collège de France. Positivista do chamado grupo ortodoxo, que se considerou iluminado em 1842, após a leitura do Curso de filosofia positiva, de Augusto Comte, ao qual encontrou em 1844, restando amigos íntimos. Criada por Comte em 1852 a religião positiva, foi também por este nomeado seu sucessor e grão sacerdote, em 1857, pouco antes de falecer. Por cincoenta anos foi "Diretor do positivismo", fazendo-se, por sua vez suceder em 1897, por Charles Jeanolle. Fundou Laffite, em 1878, o órgão oficial do positivismo ortodoxo Revue occidentale (Revista ocidental).
Defensor das doutrinas do mestre, acentuou todavia mais do que este, uma filosofia primeira, constituída de leis gerais abstratas independentes da natureza dos fenômenos, com o que resistia às tendências materialistas de alguns positivistas. Em política foi anticolonialista e pacifista, além de republicano.
Obras: Curso filosófico sobre a história
geral da humanidade (Cours philosophique sur l'histoire générakle
de l'humanité, 1859); Os grandes tipos da humanidade. Apreciação
sistemática dos principais agentes da evolução humana
(Les grandes types de l'humanité. Appréciation systématiques
des principaus agents de l'évolution humaine, 3 vols., 1874,
1875,1897), referentes a grandes homens; Da moral positiva (De
la morale positive, 11880); Curso de filosofia primeira (Cours
de philosophie première, 2 vols., 1889-1895).
847. O positivismo dissidente teve na França como principais primeiros representantes Etienne Littré (1801-1881) (vd) e Hyppolyte Taine (1828-1893) (vd), representativos todavia mais pela qualidade literária.
Outros nomes: A. De Gobineau (1816-1882); Ernest
Renan (1823-1892) (vd). Este último, como muitos outros questionaram
as religiões ditas reveladas, estimulados pelas limitações
resultantes do positivismo no plano metafísico.
Desenvolveu-se amplamente uma sociologia de fundo
positivista, com efeitos até na filosofia da educação,
e então o nome a citar é de Emile Durkheim (1858-1917).
Ao positivismo se associam os filósofos
do materialismo, geralmente monistas, a ele conduzidos pela gnosiologia
empirista. Na França, estes foram Felix Le Dantec (1869-1917).
848. Maximilien Paule Emile Littré (1801-1881). Lexicólogo e filósofo francês, nascido em Paris. Iniciou estudos de medicina, que interrompeu por causa de dificuldades materiais. Derivou então o estudo das letras e das ciências em geral, havendo chegado a ser bem sucedido. Profissionalmente trabalhou como tradutor do jornal National, além de traduzir obras mestras.
O positivismo de Littré é singelo, por vezes episódico, todavia abrilhantado pelo seu estilo e inteligência superior. Ao passar à leitura de Augusto Comte, tratou logo de o popularizar pelo jornal ao qual servia, o que fez a partir de 1844. Discordando porém do seu autoritarismo, passou a chefiar o positivismo dissidente, o que aconteceu a partir de 1851, rejeitando também a religião da Humanidade, o que então estava em criação. Já antes, em 1839, havia traduzido a Vida de Jesus, autoria de F. J. Strauss, quando também excitou o questionamento das narrativas dos Evangelhos, sobretudo sobre a fantástica assertiva da ressurreição. Insistiu no ateísmo, como peculiar ao positivismo, entre os anos de 1863 a 1871. Nos últimos anos foi um político conservador. Embora se controverta o alcance do fato, haveria Littré se tornado católico no momento da morte, deixando-se então batizar.
Celebrizou-se com o grande Dicionário
da língua francesa (Dictionnaire de la langue française,
5 vols., 1863-1872). Publicou ainda: Obras completas de Hipócrates
(Oeuvres compl`tes d'Hippocrate, 1839-1861), tradução
ao francês; Da filosofia positiva (De la philosophie positive,
1845); Conservação, revolução, positivismo
(Conservation, revolution, positivisme, 1852), incluindo
a obra precedente; Palavras de filosofia positiva (Paroles de
philosophie positive, 1859); A ciência do ponto de vista filosófico
(La science au point philosophique, 1873); Fragmentos de
filosofia positiva e de sociologia contemporânea (Fragments
de philosophie positive et de sociologie contemporaine, 1876).
849. Hyppolyte-Adolphe Taine (1828-1893). Filósofo, historiador, crítico literário, francês, nascido Vouziers, Ardennes. Em Paris estudou na Escola Normal Superior, 1849-1850. Não conseguiu ser aprovado para o ensino em universidade; acredita-se que fosse por causa de suas idéias. Foi professor de filosofia apenas alguns meses na província. Preferiu estabelecer-se em Paris, mantendo-se como repetidor e escritor de artigos para a imprensa, alcançando agora o sucesso. Doutorou-se, entretanto, em letras, em 1853. Conseguiu um prêmio da Academia Francesa, por ;um ensaio sobre Títio Lívio. A partir de 1864 alcançou tornar-se professor de estética e de história das artes na Escola de Belas Artes, onde lecionou 20 anos. Foi um investigador disciplinado da filosofia. Depois do desastre francês na guerra de 1870, verteu-se mais para a história. Atento à exatidão das ciências, Taine desde jovem rejeitou as verdades da religião sobrenaturalista, que recebera de sua família tradicionalmente católica. A Academia Francesa o recebe em seus quadros em 1878.
O sistema de Taine se define como um positivismo de tendência monista, com destaque do psicológico; encontra-se pois, como Théodule Ribot (vd), na classe do positivismo psicologista, em contraste com o positivismo cientificista. O ponto de partida gnosiológico é sensista fenomenista, aproximando-se pois de Hume. O conhecimento é uma alucinação verdadeira. O eu é uma cadeia de estados de consciência. Também foi nominalista, estabelecendo que não há conceitos universais com a correspondente realidade. Sua visão geral da realidade contém elementos do monismo e que se expressam na lei unificadora das coisas. Dali porque a teoria fundamental atinge quatro objetos : Deus, natureza, homem, sociedade. Concebeu a Deus como um axioma eterno, do qual os múltiplos fenômenos da natureza são manifestações. Aqui o pensamento de Taine apresenta analogias com o de Spinoza. Todas as coisas no mundo são dotadas pelo menos de obscura consciência (panvitalismo), como manifestações que são da única grande realidade superior. O homem é a manifestação principal de todas as manifestações da natureza e opera com inteligência e vontade. Finalmente o homem cria a sociedade.
Obras, entre outras: Os filósofos franceses
do século 19 (Les philosophes français du 19-e siècle,
1856); Ensaios de crítica e história (Essais de
critique e d'hitoire, 1858), a que o autor acresceu segundo volume
em 1865, e a edição póstuma um terceiro, em 1893,
reunindo outros ensaios do mesmo gênero; La Fontaine e suas fábulas
(La Fontaine et ses ables, 1861), tese de letras; História
da literatura inglesa (Histoire de la littérature anglaise,
1863); O positivismo inglês: Stuart Mill e o idealismo inglês:
J. Carlyle (Le positivisme anglais: Stuart Mill e l'idealisme anglais:
J. Carlyle, 1864); Novas ensaios (Nouveaux essais, 1865);
Filosofia da arte (Philosophie de l'art, 1865-1869); Teoria
da inteligência (Théorie de l'intelligence, 1870),
em que advogas o método experimental em psicologia; As origens
da França contemporânea (Les origines de la France
contemporaine, 1871-1893); Últimos ensaios de crítica
e de história (Derniers essais de critique et d'histoire,
1892); e ainda 4 vols. de correspondência, 1901-1904.
850. Théodule Armand Ribot (1839-1916). Filósofo e psicólogo francês, n. em Guingamp, Bretagne. Em Paris estudou na Escola Normal Superior. Professor na Sorbone, desde 1885. E ainda do Collège de France, a partir de 1888, como catedrático de psicologia experimental e comparada. Fundou em 1876 a Revue philosophique de la France et de l'étranger (= Revista Filosófica da França e do exterior), a qual dirigiu até 1916.
O pensamento de Ribot é positivista, tratando dos fenômenos psicológicos experimentalmente, sem os procedimentos racionalísticos que levariam à atribui-los à faculdades e finalmente à uma alma substancial. Cedo estudou a Taine e a psicologia inglesa de Taine, Spencer, A. Bain, J. Stuart Mill, os quais lhe davam importância para definir o homem. Assumiu também os métodos experimentais dos psicólogos alemães Fechner e Wundt, com novos desenvolvimentos. Foi considerado o fundador da psicologia francesa moderna; esta destaca geralmente mais a individualidade, ao contrário da tendência matematizante da alemã daquela época. Para Ribot os fatos psicológicos são dotados de espontaneidade vital, com influxos biológicos e dinâmicos.
Com referência ao seu positivismo sem alma substancial, inclinou-se Ribot progressivamente a interpretar os fenômenos da consciência como epifenômenos de processos fisiológicos, diluindo pois o dualismo tradicional numa mesma realidade. Por causa da dependência da vida consciente em relação às condições materiais, Ribot a explica por leis fisiológicas, estabelecendo pois um paralelismo psicofísico de causa e efeito entre a matéria e a consciência. Os estados psíquicos estão invariavelmente ligados a um estado nervoso correspondente. As idéias se formam por sobreposição, que começa no inconsciente e atinge como coroa o pensamento. Por último Ribot também estudou a afetividade, a qual também encontra suas raízes na estrutura fisiológica do indivíduo.
Obras: O que David Hartley pensou sobre da
associação das idéias (Quid David Hartley senserit
de consociatione idearum, 1872), tese; A hereditariedade psicológica
(L'héredité psychologique, 1873); A psicologia
inglesa contemporânea (La psychologie anglaise contemporaine,
1879); A psicologia alemã contemporânea (La
psychologie allemande contemporaine, 1879); As doenças da
memória (Les maladies de la mémoire, 1881); As
doenças da vontade (Les maladies de la volonté, 1883);
As doenças da personalide (Les maladies de la personalité,
1885); Psicologia da atenção (Psychologie de
l'attention, 1885); Psicologia dos sentimentos (Psychologie
des sentiments, 1896); A evolução das idéias
gerais (L'évolution des idées générales,
1897); Ensaio sobre a imaginação criadora (Essai
sur l'imagination créatrice, 1900); A lógica dos sentimentos
(La logique des sentiments, 1905); Ensaio sobre as paixões
(Essai sur les passions, 1907); Problemas sobre psicologia
afetiva (Problèmes de psychologie affective, 1909); A
vida consciente e os movimentos (La vie inconsciente et les mouvements,
1914).
852. Ernest Renan (1823-1892). Filólogo, historiador e filósofo francês, n. em Tréguier, Bretagne. Destinado inicialmente ao sacerdócio, cursou filosofia em Seminário de Issy, 1841-1843, teologia no Seminário Saint-Sulpice, de Paris, até 1845. Desistindo, passou à Universidade, especializando-se em língua hebraica e filologia. Doutorado de filosofia em 1852. Participou em 1860 de uma missão arqueológica à Fenícia e à Palestina. Assumiu em 1861 a cátedra de Línguas semitas, ou seja de hebraico, no Collège de France. Havendo-se referido a Jesus como apenas um homem incomparável, provocou uma grande reação, sendo em afastado em 1864 do magistério por interferência de Napoleão III com vistas a evitar conflitos religiosos. No Governo Provisório foi restituído à cátedra. Em 1882 sobre ainda à posição de administrador do Collège de France. Já em 1878 houvera sido eleito para a Academia Francesa de Letras. Depois de falecido, foi levado em grande pompa ao Panteão dos notáveis da França.
Esteve próximo do positivismo, com muitas restrições à metafísica e sobretudo à revelação; um cauteloso ceticismo dominou seu pensamento, o que seus adversários consideraram um diletantismo fugidio. Apesar de tudo, o Deus e a religião de Renan é o resultado final de uma filosofia ainda algo racional, com uma transcendência maior que a religião da humanidade de Comte.
Admitiu Renan um desenvolvimento contínuo do espírito humano; aqui denota afinidades com o idealismo de Hegel e com o evolucionismo em geral. Neste particular Renan é dado como um dos precursores da corrente sociológica do positivismo francês, porque destaca o processo social no desenvolvimento e definição do homem, e de que Durkheim (vd) é um dos principais representantes na França. Em política era algo conservador.
Mas, mas por causa de sua competência exegética, se notabilizou Renan sobretudo pela interpretação liberal dos textos bíblicos. Em decorrência Renan prestigiou na França uma difusão ampla da exegese protestante liberal alemã, sobretudo de David F. Strauss.
Obras: O futuro da ciência (L'avenir
de la science, escrito em 1848, publicado em 1890); Averróis
e o averroismo (Averroès et l'averroismo, 1852); História
geral e sistema comparado das línguas semíticas (Histoire
générale et systhème comparé des langues sémitiques,
1855), uma das obras principais; Estudos de história religiosa
(Études d'histoire religieuse, 1857); Ensaios de moral
e crítica (Essais de morale et de critique, 1859); Vida
de Jesus (Vie de Jesus, 1863); Os apóstolos (Les
apôtres, 1863); Questões contemporâneas (Questions
contempains, 1868); São Paulo (Saint Paul, 1869);
A reforma inteletual e moral (La reforme intellectuele et moral,
1871), escrito político no qual se inspirou o direitismo de
Barr e Maurras; O Anticristo (L'Antéchrist, 1873);
Diálogos filosóficos (Dialogues philosophiques,
1873); Os Evangelhos e a segunda geração cristã
(Les Evangiles et la second génération chrétienne,
1877); Dramas filosóficos (Drames philosophiques,
1878-1886); Marco Aurélio e o fim do mundo antigo (Marc
Aurèle et la fin du monde antique, 1881); Recordações
da infância e da ;juventude (Souvenir de l'enface et de la
jeunesse, 1883); Folhas soltas (Feuillles detachées,
1892), esta e a obra anterior ;são muito apreciadas no gênero
de memórias; Os Evangelhos (Les Évangiles, 1887);
História do povo de Israel (Histoire du peuple d'Israel,
5 vols., 1988-1994).
853. Emile Durkheim (1823-1917). Sociólogo francês, de origem judia, nascido em Epinal, Alsácia . Estudou em Paris na Escola Normal Superior, formando-se em filosofia, 1882. Inicialmente lecionou em vários liceus. Estudou ciências sociais em 1885 e 1886, em Paris e na Alemanha. De 1887 a 1902 professor de pedagogia e ciência social, na universidade de Bordeaux. Doutorado em 1893, com tese sobre a divisão do trabalho social. Em 1902 retorna a Paris, como suplente da cadeira de pedagogia, na Sorbonne, vindo a ser titular em 1906; a referida cátedra passará a denominar-se de sociologia, em 1913.
Praticou Durkheim o realismo social, no sentido de que a sociedade está acima dos indivíduos, como entidade sui generis, com propriedades específicas, tal como um composto químico, que não é apenas a soma das partes; existe algo acima do homem individual, a sociedade, dentro de cujo contexto ele se forma, sendo pois finalmente um produto da mesma. A partir dali desenvolveu Durkheim uma filosofia e sociologia da educação.
O realismo social foi por sua vez é tratado como positivismo social, em que epistemologicamente só vale a experiência, sem racionalismos. Contribuiu para esclarescimentos epistemológicos sobre a sociologia e para determinação de conceitos sociais que servem a filosofia social e política. A sociologia de Durkheim não vê no final dos problemas sociais uma solução pela simples resolução das classes em luta a se superarem umas as outras pela liquidação dialética, mas pelo consenso do acordo.
Dürkheim é considerado chefe da assim chamada escola sociológica francesa, distinta da escola de ciência social de Le Play. Influenciou também a pedagogia e a filosofia da educação, exatamente porque a educação é interpretada como um processo social.
Obras: Da divisão do trabalho social
(De la division du travail social, 1893); Regras do método
sociológico (Règles de la méthode sociologique,
1894); O suicídio: um estudo de sociologia (Le suicide:
une étude en sociologie, 1897); As formas elementares da
vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália (Les
formes élémentaires de la vie religieuse: le systhème
totémique en Australie, 1912). Póstumos: Educação
e sociologia (Education et sociologie, 1922); Sociologia
e filosofia (Sociologie et philosophie, 1924); Pragmatismo
e sociologia (Pragmatisme et sociologie, 1955); Educação
moral: um estudo sobre a teoria e a aplicação da
sociologia da educação (Moral education: a study
in the theory and aplication of the sociology of education, 1961),
conferências publicadas dispersivamente entre 1902 a 1906.
854. Felix le Dantec (1869-1917). Biólogo e filósofo francês, nascido em Plougastel. Em Paris estudou biologia e fisiologia na Escola Normal Superior. Trabalhou no Instituto Pasteur, quando também cumpriu missões em Laos (1889-1890) e depois ao Brasil com vistas à febre amarela. Em 1893mestre de conferências numa faculdade de Lyon. A partir de 1899, lecionou biologia geral na Sorbona. Anti-metafísico no sentido tradicional, destacou a ciência, sendo neste sentido um positivista da corrente científica. Pertenceu ao grupo dos materialistas que, rompendo um tanto com o positivismo, criou uma espécie de metafísica monista, dita também filosofia biológica, em que a realidade total se reduz sempre à unidade monista da matéria, vida e espírito. Neste sentido não há Deus separado do mundo, nem há alma separada da matéria, da qual o psiquismo é apenas uma epifenômeno.
Desenvolveu Dantec o materialismo evolucionista e difundiu a Haeckel na França. Referiu-se a consciências atômicas elementares do organismo e que tomam ulterior desenvolvimento. Reinterpretou a morte, a qual é negada, como um mecanismo puramente físico. Afastado, por conseguinte, o conceito tradicional de alma, a consciência não passa a ser mais que um epifenômeno e um prolongamento evolutivo da evolução biológica geral. A natureza humana é, no seu entender, fundamentalmente egoísta e feroz, tudo finalmente determinado pelo determinismo da realidade total.
Obras: A individualidade e o erro individualista
(L'indivualité et le erreur individualiste, 1897); O ateísmo
(L'athéisme, 1906); Elementos de filosofia biológica
(Eléments de philosophie biologique, 1911); O egoísmo,
única base de toda a sociedade (L'égoisme, seule base
de tout societé, 1971); Contra a metafísica (Contre
la métaphysique, 1912); O problema da morte e da consciência
universal (Le problème de la mort et la conscience universelle,
1917).
III - Positivismo na
Inglaterra. 2216y858.
858. Cronologicamente, o positivismo inglês não é mais que um novo alento dado ao tradicional empirismo, proveniente de Francisco Bacon, através de Hobbes, Locke e Hume; todavia agora ele se apresenta com um novo sotaque, o do francês Augusto Comte, o qual não excetua sequer os litúrgicos do templo da Humanidade.
Redivide-se o positivismo inglês, naquele
do século 19, o qual mais de expressamente leva o nome, e naquele
desenvolvido sobretudo a partir do começo do século 20, as
vezes denominado neo-realismo, neopositivismo, filosofia analítica,
análise da linguagem.
859. Positivismo inglês, do século 19. O Curso de filosofia positiva de Comte foi traduzido ao inglês por Harriet Martineau (1802-1876), que ainda o comentou.
Em 1867 já havia na Inglaterra um grupo suficientemente grande de místicos ao estilo Augusto Comte, quando então se fundou em Londres a London Positivist Society, que praticaria o culto religioso com alguma assiduidade ao menos até o primeiro quartel do século seguinte.
O ortodoxo Richard Congreve (1818-1899) fundou o grupo positivista de Wadham, que precedeu à Sociedade Positivista de Londres, de 1867, cuja prosperidade levou em 1893 a publicação da The positivist rewiew.
Positivistas com pensamento próprio: John Stuart Mill (1806-1873 (vd), Herbert Spencer (1820-1903) (vd), Carveth Read (1848-1931) (vd).
Do ponto de vista de sistema, o positivismo inglês do século 19 oferece as diferenças ocorridas também no continente europeu, sendo um científico, outro psicológico, finalmente um terceiro sociologista.
No modelo do positivismo de orientação científica, fixado dominante na realidade física, destacando o monismo do todo, o reducionionismo de matéria e espírito, portanto o materialismo, bem como a evolução geral da realidade, - se encontra Herbert Spencer (vd), Carveth Read (1848-1931).
Reduzem-se ao mesmo capítulo do positivismo os materialistas e, na época, com frequência os pensadores evolucionistas, como por exemplo Charles Darwin (vd). O desenvolvimento do evolucionismo como doutrina foi um mérito dos positivistas ingleses.
No contexto do positivismo de orientação
psicológica se situam John Stuart Mill e seu grande discípulo
Alexander Bain (1918-1903), este autor de Os sentidos e o inteleto
(The senses and the intellect, 1855), Lógica, dedutiva
e indutiva (Logic, deductive and inductive, 1870).
Quem no plano do positivismo sociologista,
na Inglaterra do século 19?
861. John Stuart Mill (1806-1873). Filósofo e economista inglês, nascido em Londres. Como seu pai, o filósofo utilitarista James Mill, empregou-se na Companhia das Índias Ocidentais (East India Company), de 1823 a 1858. Parlamentar por Westminster, em 1865, havendo então defendido o Reform Bill (1867), o voto feminino, alguns direitos da Irlanda. Não reeleito, retirou-se para Avignon, ali se entregando, mais intensamente aos trabalhos inteletuais, até falecer poucos anos depois (1873).
Cedo passou do empirismo (de seu pai), ao positivismo
de Comte. Deu novo desenvolvimento ao estudo da indução,
a que Bacon já dera início, estabelecendo melhor suas regras:
concordância entre os fenômenos, diferença
entre eles, variações concomitantes, finalmente resíduos.
Não valorizou o silogismo, como aliás já fizera Bacon.
Aliás, o nominalismo (contra os universais), praticado por Stuar
Mill e peculiar ao positivismo em geral, não favorece ao silogismo;
em última instância, nem mesmo à indução.
Tratou também Stuart Mill da estrutura das
demais ciências, como dialética e da psicologia, instituindo
a esta sua condição de ciência específica, porquanto
houvera sido reduzida por Comte à biologia. Não deve entretanto
a psicologia afastar-se da experiência fenomênica, de sorte
que ficam sem sentido as faculdades e a alma substancial a parte. Afasta,
portanto, a psicologia racional.
As ciências morais, ou a ética,
estuam a conduta do homem, apoiando-se na psicologia, e não em princípios
metafísicos normativos; desta sorte estão reduzidas ao plano
positivo. Stuart Mil foi um liberal em política, havendo procurado
fazer coincidir o bem individual com o coletivo. Na formação
da sociedade é relevante a causalidade dos valores individuais e
altruísticos, culminando num socialismo ético. Estabeleceu
também o liberalismo econômico. Foi um dos primeiros a escrever
sobre a libertação da mulher, o que é interpretado
como reflexo dos problemas sociais do meio em que viveu e mesmo porque
os preconceitos de seu tempo o fizeram demorar 21 anos para se casar com
Henrriet Taylor, após a morte do primeiro marido desta.
O fenomenismo de Stuart Mil reduz a matéria a uma possibilidade permanente de sensações". O espírito não é uma possibilidade permanente de estados de consciência".
Obras: Um sistema de lógica, dedutiva
e indutiva, em conexão com os princípios e métodos
da pesquisa científica (A system of logic, ratiocinative
and inductive, being a connected view of the principles and the methods
of scientific investigation, 2 vols., 1843), com frequentes reedições;
Ensaios sobre algumas questões ainda não resolvidas sobre
economia política (Essays on unsettled questions of political
economy, 1844); Princípios de economia política com
algumas aplicações à filosofia social (Principles
of political economy, with some of their applications to social philosophy,
2 vols., 1848); Sobre a liberdade (On liberty, 1859);
Pensamentos sobre a reforma parlamentar (Thougts on parlamentary
reform, 1859); Considerações sobre o governo representativo
(Consideration on representative government, 1861); Utilitarismo
(Utilitarianism, 1863); Exame da filosofia de Sir Guilherme Hamilton
(Examination of Sir William Hamilton's philosophy, 1865); Augusto
Comte e o positivismo (Auguste Comte and positivism, 1865; Discurso
inaugural da Universidade de St. Andrews, 1867; Inglaterra e Irlanda
(England and Irland, 1868); A sujeição das
mulheres (The subjection of women, 1869); Capítulos
e discursos sobre a questão da Irlanda (Chapters and speeches
on the Irish Land question, 1870); Autobiografia (Autobiography,
1873); Três escritos sobre religião: natureza, a utilidade
da religião e teísmo, 1874; Correspondência (Letters,
2 vols., 1910).
862. Charles Robert Darwin (809-1882). Cientista e filósofo inglês, nascido em Shrewsbury, no Shropshire. Iniciou estudos de medicina em Edinburgh, passando aos de teologia em Cambridge, alcançando o diploma de mestre em artes (Magister artium). Desviou-se da carreira eclesiástica, passando a fixar-se no estudo das ciências naturais, até que em 1831 fosse recomendado por um cientista botânico para acompanhar a expedição transoceânica do Beagle, da Marinha inglesa, que visava dados cartográficos. A expedição lhe permitiu observar diferentes formações geológicas, a fauna, a zoologia e mesmo o homem de Cabo Verde, América do Sul e Austrália (1831-1836). Depois trabalhou alguns anos em Londres sistematizando os dados colhidos, visando confirmar a teoria da evolução. Em 1842, declinando a sua saúde, retirou-se para Down, onde ainda viveu muitos anos, ali concluindo seus escritos.
Mais cientista do que filósofo, as suas pesquisas influenciaram todavia profundamente a antropologia filosófica e a revisão de conceitos teológicos. Retomando hipóteses de Lamarck e de seu avô Erasmus Darwin, definiu e documentou melhor a evolução das espécies vivas, com grande cuidado, vindo somente em 1859 propor a hipótese da evolução animal do homem. A seleção seria o fator geral a comandar o processo de fixação das alterações. As espécies não teriam sido, pois, criadas como classes independentes, originando-se por simples variação. Darwin ainda não conheceu o mecanismo interno das mutações genéticas, fatores mais profundos que também entram em jogo na seleção.
Obras: A origem das espécies através
de meios naturais de seleção, ou preservação
das raças favorecidas na luta pela vida (On the origin of
species by means of natural selection, or the preservation of favoured
races in the struggle for the life,1859), obra mestra da história
do evolucionismo; Sobre o movimento e hábitos das plantas trepadeiras
(On the movements and habits of climbing plants, 1865); A
variação dos animais e plantas sob domesticação
(The variation of animals and plants under domestications, 1868);
A descendência do homem, e seleção em relação
ao sexo (The descent of man, and selection in relation to sex,
1871); A expressão da emoção no homem e nos animais
(The expression of emotions in man and in the animals, 1872).
Ocorreu também uma publicação do diário da
Viagem de um naturalista ao arredor do mundo a bordo do navio Beagle
(A naturalist's voyage around the wordl), 3 vols., referentes
aos anos de 1832 a 1836.
863. Herbert Spencer (1820-1903). Filósofo social inglês, nascido em Derby. Recebeu toda a educação com preceptores particulares. Aos domingos assistia pela parte da manhã ao culto quaker, com seu pai; pela, ao culto metodista, com sua mãe. Esta circunstância desenvolveu seu espírito crítico, preparando-o para ser um livre pensador. Preferiu os estudos de física e matemática, ao das línguas. Trabalhou como engenheiro na estrada de ferro, que então se construía de Londres a Birmingham, de 1837 a 1846. Passou então ao estudo da biologia e geologia. De 1848 a 1853 o jornalismo, como assessor do Economist. Neste mesmo período se dedicou também a escrever suas obras, expondo um sistema não distante do de Comte.
Gnosiologicamente Spencer é um positivista, por sua vez da corrente cienticista. Considerou os objetos do mundo meramente racional como inatingíveis em si mesmos, de sorte a deixar a realidade como dividida em cognoscível e incognoscível. Particularmente é incognoscivel o Absoluto, o substrato permanente dos fenômenos do movimento, das mudanças, da força, da matéria, da consciência. O absoluto é a esfera das religiões, as quais não conseguem estabelecer-se como seguras.
No plano das coisas cognoscíveis manifesta-se como lei geral a evolução, em vez de uma criação em cada grande alteração. Antecipou-se em alguns aspectos sobre a teoria da seleção das espécies de Darwin. A evolução se processa do mais simples ao mais complexo, do homogêneo para o heterogêneo, do mais desorganizado para o mais organizado. A nebulosa primitiva homogênea se converteu em mundos heterogêneos, distintos e solidários, como primeiro passo na evolução cósmica, de acordo com a teoria Kant-Laplace. Da combinação química mais complexa surgiu a vida. Por diferenciações ascendentes se estabeleceram todas as espécies botânicas e zoológicas. O surgimento do sistema nervoso se constituiu na fase mais significativa do surgimento dos fenômenos psíquicos, paralelamente aos fenômenos físicos. Novas sucessões evolutivas no processo psíquico deram origem aos reflexos, instintos, memória, razão sentimento, vontade. O homem surgiu como forma superior da animalidade.
As ciências, a princípio enciclopédicas, progrediram por diferenciação. Spencer classificou as ciências numa ordem de abstração diferente da de Comte, reintroduzindo a psicologia, como também o fizeram outros positivistas. Quanto à sociologia, usou, como Comte a linguagem da fica e da biologia, concebendo a sociedade como um organismo vivo. Haveria, pois, no corpo social fenômenos como assimilação e circulação. Também a moral é evolutiva. Inicialmente o prazer era a regra determinadora única da eleição dos atos. Depois o egoísmo se transformou em altruísmo como regra prática mais útil para todos serem bem servidos. Fundamentalmente a ética de Spencer é a do utilitarismo. A educação prepara o homem dentro do contexto da evolução. Em tudo, pois, o sistema de Spencer é um positivismo evolucionista, aspecto em que o admirou Henri Bergson.
Obras: A esfera própria do governo (The
proper sphere of governemente, 1843); Estática social, ou
as condições da felicidade humana (Social statics,
or the conditions essencial to human happiness 1850), reformulado em
1892; Ensaios, cientíicos, políticos e especulativos (Ensaios,
scientific, political ad speculative, 2 vols., 1858-1863), reunindo
artigos anteriormente publicados em periódicos; Sistema de filosofia
sintética (System of syntetic philosophy, 1860), que
prevê as subsequentes, num total de 10 volumes; Primeiros princípios
(First principles, 1862); Princípios de biologia (Principles
of biology, 2 vols.,1864-1867); Princípios de psicologia
(Principles of psychology, 1865), aumentado depois, para 2 vols.,
1870-1872; Principios de sociologia (Principles of sociology,
3 vols, 1876-1895); Princípios de moralidade (Principles
of morality, 1892-1893). Nesta série foram absorvidos alguns
escritos anteriores a 1860, quando ela iniciou. Outras obras ainda: A
classificação das ciências: com adendo de razões
discordando da filosofia de M. Comte (The classifation of
the sciences: to which are added reasons for dissenting from the phylosophy
of M. Comte, 1864); O estudo da sociologia (The study of
sociologia, 1873); O homem contra o Estado (The man versus
the State, 1884); Educação (Education,
1861); Os fatores da evolução orgânica (The
factors of organic evolution, 1887); A inadequacidade da seleção
natural (The inadequacy o natural selection, 1893); Uma resposta
ao professor Weismann (A rejoinder to profesor Weismann, 1893);
Weismanismo (Weismanism once more, 1894); Vários
fragmentos (Various fragments, 1897); Fatos e comentários
(Facts and comments, 1902); Autobiografia (Autobiography,
2 vols., 1904).
864. Carveth Read (1806-1931). Foi professor de filosofia no University College, de Londres, 1903-1911.
Positivista na linha do empirismo de John Stuart
Mill, com aproximações à metafísica idealista.
Obras: Sobre teoria da lógica: um ensaio
(On theory of logic: an essay, 1878); Lógica dedutiva e indutiva
(Logica deductive and inductive, 1898); A metafísica da natureza
(The metafphysics of nature, 1905); Moral natural e social (Natural
and social morals, 1909); A origem do homem e sob suas superstições
(The origin of man and of his superstitions, 1920, 2-a ed. com 2 vols.,
1925).
865. Neo-realismo, filosofia analítica, neopositivismo na Inglaterra. Na volta do século 19 para o 20, novas formas de positivismo surgiram na Inglaterra, algumas de inspiração própria, e outras resultantes do desenvolvimento geral da filosofia na Europa, agora em processo de integração global, ao menos no plano cultural. Atribui-se o estabelecimento do neo-realismo na Inglaterra a Jeorge Edward Moore (1873-1958) (vd), influído por Brentano de Meinong, do Continente. Dele participam figuras de importância no contexto da filosofia inglesa: Bertrand Russel (1872-1970), (vd), Alfred North Whitehead (1861-1948) (vd), C. Lloyd Morgan (1852-1936), J. Laird (1887-1946) e outros mais. O realismo de Samuel Alexander (1859-1938) é caso especial, no que concerne ao conceito de realidade emergente.
Ao novo contexto positivista da Inglaterra se
ligaram dois ádvenas da Áustria: Ludwig Wittgenstein (1889-1951)
(vd) e Karl Popper (1902-1994) (vd).
866. George Edward Moore (1873-1958). Filósofo inglês, nascido em Londres. Estou letras em Cambridge, passando logo à filosofia, por conselho do então também jovem Bertrand Russel. No Trinity College de Cambridge, fellow de 1898 a 1904; lecturer de 1911 a 1925, professor, de 1915 a 1939, quando passou a lecionar nos Estados Unidos da América. Diretor da revista Mind.
Foi um dos mentores da reação contra o idealismo na Inglaterra, e com isso também um dos representantes, com Bertrand Russel, do neo-realismo, de feição positivista. Também com Bertrand Russel desenvolveu a filosofia analítica. Subdividindo-se esta em várias correntes (Carnapiana, Wittgesteinianos, terapêuticos, dialéticos, independentes), a escola de More tomou como base a linguagem cotidiana, coincidente com o sentido comum. Aproveitou a fenomenologia de Meinong e Husserl.
Obras, além de grande número de
artigos, de cuja coleta se criaram alguns dos seus livros : Princípios
éticos (Principia ethica, 1903); Ética (Ethics,
1912); Estudos filosóficos (Philosophical studies, 1922),
reunindo artigos, entre os quais o importante Refutação
do idealismo (The refutation of idealism, na revista Mind,
1903; A filosofia de Bertrand Russel (The philosophy of Bertrand
Russel, 1944); Alguns problemas essenciais da filosofia (Some
main problems of philosophi, 1953); Textos filosóficos
(Philosophical papers, 1954).
867. Alfred North Whitehead (1861-1947). Matemático e filósofo, inglês, nascido em Ramsgate. Estudou no Trinity College, em Cambridge. Fellow em 1884. Lecionou no mesmo Trinity College matemática aplicada e mecânica, 1885-1910. Em Londres, matemática, de 1910 a 1924. Emigrado para os Estados Unidos da América, naturalizou-se também americano, sendo professor de filosofia da Universidade de Harvard (Cambridge, Massachussets), 1914-1937.
Já de início teve Whitehead pela filosofia das ciências, assumindo uma posição positivista, na forma do neo-realista. Notabilizou-se sobretudo com a publicação do Principia mathematica, em colaboração com Bertrand Russel, que fora seu aluno.
O conhecimento, apesar de suas limitações e subjetividades, ultrapassa a si mesmo, e alcança a realidade. A indução é uma espécie de adivinhação. Não descobre universais, mas caracteres particulares de uma comunidade. Não somente conhecemos os dados, também as causas diretamente, não sendo estas apenas uma superestrutura mental. A epistemologia também foi desenvolvida por Whitehead, determinando as funções e métodos da matemática e das ciências.
Conduziu Whitehead seus trabalhos matemáticos na direção de uma filosofia da natureza, como segunda fase de seu magistério. Fundamentalmente é um monista, porque não estabelece uma cisão entre matéria e espírito, porquanto este é uma função daquela. A realidade a considera dinâmica, em que distingue duas "essências", as quais denomina acontecimentos e objetos, de que os acontecimentos constituem a matéria e os objetos a forma das coisas. Os acontecimentos não mudam, mas passam a outros acontecimentos; estão interligados. Os objetos são as características atômicas da natureza; estes objetos subsistem, e são eternos; eles são o "ingrediente" dos acontecimentos.
Por último Whitehead tendeu para uma metafísica especulativa panenteista. Contrário ao cientificismo, mecanicismo e subjetivismo, desenvolveu uma imagem orgânico-platônica do universo. Do fluxo atual dos acontecimentos somente se infere que não há substâncias realmente duradouras, um devir eterno, um dinamismo radical. Para explicar este devir, temos de admitir potencialidades objetivas a se exercerem como um cego impulso criador. Estas potencialidades têm o aspecto de serem causa eficiente e ao mesmo tempo a matéria do devir. Ocorre aqui algo de similar às idéias reais de Platão. Deus, de que agora fala Whitehead, não se separa do mundo, ao qual ele determina. Eis o panenteísmo, como síntese explicativa final do universo. A vida de Deus é a sua criatividade. O caminho para chegar até aqui é racional, e não uma intuição ao modo dos místicos. Não se esqueceu de abordar a educação e mais especificamente a religião.
Obras: Um tratado sobre álgebra universal
(A treatise on universal algebra, 1898); Os axiomas da geometria
projetiva (The axioms of projective geometry, 1906); Os axiomas
da geometria descritiva (The axioms of descriptive geometry,
1907); Princípios matemáticos (Principia mathematica,
1910-1913), em colaboração com Bertrand Russel; Uma introdução
à matemática (An introduction to mathematics,
1911); A organização do pensamento, racional e científico
(The organization of thought, educational and scientific, 1917);
Uma investigação referente aos princípios do conhecimento
natural (An inquiry concerning the principles of natural knowledge,
1919); O conceito de natureza(The concept of nature, 1920);
O princípio da realidade (The principle of reality,
1922); A ciência e o mundo moderno (Science and the modern
world, 1926); A religião em seu devir (Religion in
the making, 1926); Simbolismo, seu significado e efeito (Simbolism,
its meaning and effect, 1927); Os objetivos da educação
e outros ensaios (The aims of education and other essays,1929);
Processo e realidade (Processo e realidade. Um ensaio sobre cosmologia
(Process and reality. An essay in cosmology, 1929), obra de
destaque; A função da razão (The function
of reason, 1929); Aventuras das idéias (Adventures
of ideas, 1933); Natureza e vida (Nature and life, 1934);
Modos de pensamento (Modes of thoughts, 1938); Ensaios
de ciência e filosofia (Essays and philosophy, 1947),
com autobiografia.
868. Bertrand Russel (1872-1970). Filósofo inglês, n. em Trelleck, País de Galles (F. Mora diz em Rovenscref, Monmouthpiece). Embora de família nobre, foi órfão aos 4 anos. Estudou no Trinity College, de Cambridge, 1890-1894, havendo conquistado primeiro lugar em matemáticas e ciências morais. Serviu na embaixada inglesa de Paris, 1894-1895. Lecionou no Trinity College de Cambridge, como fellow a partir de 1895, como lecturer a partir de 1910. Foi uma personalidade envolvida com originalidades. Casou quatro vezes. Ao receber a herança, desfez-se dela, com vistas a viver de seu próprio trabalho. Como pacifista, teve dificuldades no curso da Grande Guerra, havendo sido impedido de lecionar em 1916. O mesmo acontecerá no futuro, havendo retornado à cátedra apenas em 1944. Prêmio Nobel de Literatura, 1950.
Iniciado na filosofia a partir dos empiristas ingleses, como Stuart Mill, foi um positivista bastante radical, não havendo ultrapassado em muito os horizontes da matemática e da física.
Em colaboração com A. N. Whitehead desenvolveu a filosofia da matemática e da logística, além de tentar a redução da matemática à lógica. Dali seu interesse nos matemáticos e filósofos desta área, como G. Frege (1848-1925), que havia formalizado não somente a lógica, mas também a matemática. Aplicou-se à lógica tradicional das relações, tentando novos desenvolvimentos. Ampliou a lógica dos predicados. Traduziu em enunciados lógicos os fundamentos da teoria matemática dos números reais.
Na Inglaterra foi bertrand Russel o importador do positivismo lógico do Círculo de Viena, sendo nesta condição adversário do hegelianismo. Não obstante, por algum tempo, admitiu uma certa realidade platônica para as relações matemáticas.
Anti-idealista, defendeu o realismo, o qual foi reconquistando seu lugar na filosofia inglesa; dali seu lugar na neo-realismo, na Inglaterra. No curso dos anos deixou de ser muito insistente no realismo. Denominou-o neorrealismo (ou atomismo lógico), para distinguí-lo do holismo (ou totalismo), característico do hegelianismo. Neste sentido assevera que um termo pode ser conhecido independentemente de suas relações com outros termos. Os objetos reais são como que feixes de qualidades (qualia), aparência interrelacionadas logicamente no espaço comum. Neste sentido distingue entre o conhecimento direto (átomos lógicos) e conhecimento descritivo (logicamente construído). O espaço é construído com os espaços privados de cada observador.
Enquadrado na filosofia analítica ...
A ética positivista de Russel é formulada a partir da subjetividade dos desejos humanos. Fica sem validade aquela ética formulada com proposições que podem ser verdadeiras e falsas a um tempo. Além de pacifista, foi um liberal e antifascista. Seu estilo fácil, por vezes assumindo formas de divulgação superficial popular, lhe facultaram grande influência no público. Sua longa lista de publicações é uma alternação de escritos lógico-epistemológicos com temas ético-sociais.
Obras: Social democracia alemã (German
social democracy, 1896); Um ensaio sobre a fundamentação
da geometria (An essay on the foundation of geometry, 1897);
Uma exposição crítica da filosofia de Leibniz (A
critical expsition of the philosophy of Leibniz, 1900); Os princípios
da matemática (Principles of mathematics, 1903); Principios
matemáticos (Principia mathematica, 3 vols. 1910)-1913,
com A.. N. Whitehead; Ensaios filosóficos (Philosophical essays,
1910); Os problemas da filosofia (The probems of philosophy,
1912); Nosso conhecimento do mundo exterior ... (Our knowledgeof
the external world as a field for scientific method in physic, 1914);
Princípios de reconstrução social (Principles
of social reconstruction, 1916); Guerra o despertar do medo (War
the offspring of fear, 1916); Caminhos para a paz: socialismo, anarquismo
e sindicalismo (Road to freedom: socialism, anarchism, syndicalism,`1918);
Misticismo e lógica (Mysticism and logic, 1918);
A física do atomismo lógico (Logical atomism , 19...);
ABC da relatividade (ABC of relativity, 1925); O que eu
creio (What I believe, 1925); Sobre a educação
especialmente na primeira infância (On education specailly in early
childhood, 1926); A análise da matéria (The
analysis of matter, 1927); Ensaios céticos (Sceptical essays,
1927); Um esboço da filosofia (An outline of philosophy,
1929); Casamento e moral (Marriage and morals, 1929);
A conquista da felicidade (The conquest of happiness, 1930);
O panorama científico (Scientic outlook, 1931); Educação
e ordem social (Education and social order, 1932); A paz
contra a organização 1813-1914 (Fredom versus organization,
1813-1914, 1934); Em louvor da ociosidade (In praise of
idleness, 1935); Qual o caminho para a paz? (Which way to peace?,
1936); Os papéis de Amberleys (The Amberleys papers,
1937); Poder: uma nova análise social (Power: a new
social analysis, 1938); Uma investigação sobre o significado
e a verdade (An inquiry into meaning and truth, 1940); Uma história
da filosofia ocidental e suas conexões com as circunstâncias
políticas e sociais (A history of western philosophy and
its connexion with political and social circonstances, 1947); Filosofia
e política (Philosophy and politics, 1947); O conhecimento
humano: Seus objetivos e limites (Human knowledge: Its scope and
limits, 1948); Autoridade e o individual (Authority and the
individual, 1949); Ensaios impopulares (Anpopular essays,
1950); O impacto da ciência sobre a sociedade (The
impact of science on society, 1951), conferências; A sociedade
humana em ética e política (Human society in ethics and politics,
1954); Porque não sou um cristão (Why I am not a christian,
1957); Lógica e conhecimento, ensaios 1901-1950 (Logic
and knowledge, essays 1901-1950, 1956), incluindo artigos anteriores;
O futuro da ciência (The future of science, 1959);
Sentido comum e guerra nuclear (Common sense and nuclear warfare, 1959);
A sabedoria do Ocidente (Wisdom of West, 1959); Minha
formação filosóficas (My philosophical development,
1959); Tem o homem um futuro? (Has man a future? , 1961);
Escritos básicos de Bertrand Russel: 1903-1959 (Basic
Writings of Bertrand Russel: 1903-1959, 1961); Fato e ficção
(Fact and fiction, 1962), artigos e ensaios; Autobiografia
(Autobiography, 3 vols., 1967-1969); A arte de filosofar e outros
ensaios (The art of philosophizing and other essays, 1968),
reunião de ensaios dos anos 1941 a 1944; Ensaios em análise
(Essays in analysis, 1973), outros textos dispersos reunidos
postumamente.
869. Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (1889-1951). Filósofo austríaco, nascido em Wiena, com longa vivência inglesa. De origem judia de ambos as partes, mas seu pai protestante, a mãe católica, não foi induzido a nenhuma das religiões do contexto familiar; mas no final de sua vida revelou aproximações com o catolicismo. Sendo todavia seu pai um grande forjador, foi mandado estudar engenharia mecânica em Berlim, 1906, e depois engenharia aeronáutica em Manchester, 1908 a 1911. Sua experiência em matemática lhe deu oportunidade de estudar os trabalhos lógicos de Frege e Russel. Em 1912 seguiu os cursos de Russel em Cambridge. Soldado durante a Primeira Guerra mundial, chegou a ser preso na Itália. Por volta de 1920 leu os Evangelhos e, sob a influência do exemplo de Tolstoi, distribuiu entre os parentes a fortuna herdada do pai, e abandonou o estudo da filosofia, optando por ensinar em escolas primárias no interior da Áustria, assim procedendo de 1920 a 1927. Mas publicou em 1921 seu famoso tratado de lógica. Contactou os filósofos do Círculo neopositivista de Viena. Revisitou Cambridge em 1929, retomando ali, em 1929, os seus estudos de filosofia. Professor assistente de 1930 a 1936. Adquiriu a cidadania inglesa em 1938. Titular da cátedra de filosofia, de 1939 a 1947, falecendo 4 anos depois de câncer. Um homem sem ambições, deixou quase toda a sua obra em estado inédito.
Herdou Wittgenstein o espírito anti-metafísico de Kant e Schoppenhauer, situando-se logo numa posição positivista, a de que somente as proposições sobre fatos são verdadeiras. Para além disto, somente existe a lógica e a linguagem, as quais importa conhecer e pôr no seu respectivo lugar, como formalismos, e não como realidades de validade ontológica.
Numa primeira fase o pensamento de Wittgenstein contém elementos ontológicos, que serão deixados na segunda, ou seja, ao retomar o estudo da filosofia (1929), a qual seria então reduzida aos seus elementos meramente linguísticos. É fundamental para compreender a Wittgenstein atender ao estado dos seus pressupostos positivistas iniciais, para depois determinar as mudanças. Somente há fatos isolados (atômicos), isto é, o mundo real é composto de fatos absolutamente independentes. A linguagem somente é verdadeira, quando expressa um desses fatos. A ciência, ao se ocupar destes fatos, é um saber verdadeiro. A linguagem, quando afirma outras coisas, que não os fatos isolado, é sem sentido, ainda que não possamos dizer que ela é falsa; deste outro tipo de afirmações sem sentido se constitui a filosofia. Não temos, como responder às proposições de filosofia, senão que elas estão sem sentido. Filosofar é apenas uma atividade (Taetigkeit). O ensino da filosofia deve limitar-se a mostrar quais são as proposições científicas e quais são as sem sentido, ou seja, quais são as filosóficas. O resto é apenas uma questão de detalhes de lógica ou de filosofia da linguagem. O segundo Wittgenstein se ocupa mais vastamente das proposições atômicas, cujas combinações resultam nas "funções de verdade".
Evidentemente que Wittgenstein teria que começar provando a assertiva positivista inicial, de que o nosso conhecimento apreende as coisas como fatos sem inter-relação, e sobretudo sem a intuição do ser. Neste instante todos os positivismos são contraditórios, porquanto ao se estabelecerem a si mesmos, fazem uma afirmação não factual.
Obras: Tratado lógico-filosófico (Tractatus logico-philosophicus, 1922), título adquirido na 2-a edição, na Inglaterra, já em forma de livro, e com tradução para o inglês, de C. K. Ogden e com introdução de Bertrand Russel, porquanto na primeira (1921), em alemão, se intitulava Dissertação logico-filosófica (Logisch-philosophische Abhandlung, editado por Anais de Filosofia da Natureza, sob a direção de Wilhelm Ostwald; a edição de 1933, dita 2-a, contém algumas correções; Alguma observações sobre a forma lógica (Some remarks on logical form, artigo de 9 páginas, em Procedings of the Aristotelian Spciety, Supp. Vol. 9, ano 1929, .p. 162-171).
Póstumas: Pesquisas filosóficas
(Philosophische Untersuchungen, juntamente com o texto inglês,
1953); Observações filosóficas sobre os fundamentos
das matemáticas (Philosophical remarks int the foundations
of mathematics, 1956); Estudos preliminares às pesquisas
filosóficas, geralmente conhecidos como os Livros azul e Marron
(Preliminary studies for the philosophical investation, generally
know as the Blue and the Brown Books, 1957); Livro de notas (Notebooks
1914-1916, ed. 1961); Observações filosóficas
(Philosophische Bemerkung, 1964), materiais recolhidos por Wittgenstein
em 1930; Gramática filosófica (Philosophische Grammatik,
1969. E assim outros e outros textos e fragmentos, inclusive notas
recolhidas por alunos, foram publicados no curso dos anos.
870. Gilbert Ryle (1900-1976). Filósofo inglês, n. em Brighton, East Sussex. Estudou em Oxford. Também professor de metafísica na Universidade de Oxford, 1947-1971 (Logos diz 1945-1968).
Acompanhou de perto o desenrolar da filosofia alemã. Realista e empirista segundo a tradição da filosofia inglesa. Pôs atenção na filosofia clássica de Platão e Aristóteles, como também ao desenrolar da filosofia alemã, de Husserl por exemplo. Confere em vários pontos com Wittgenstein. Concentrou-se na análise conceptual, dando destaque à noção de categoria. Adverte que as categorias não se relacionam entre si. As categorias correspondem à grupos de respostas à perguntas distintas: que é? como é? onde?, etc., em que cada pergunta forma a respectiva classe de respostas, as quais em conjunto pertencem à respectiva categoria. O erro, diz Ryle, provém quando um conceito é arrolado sob uma categoria à qual não pertence.
Obras: Argumentos filosóficos (Philosophical
arguments, 1945); O conceito de mente (The concept of mind,
1949); Dilemas (Dilemmas, 1954), reunião de diversos
trabalhos gnosiológicos, inclusive um sobre a tartaruga perseguida
por Aquiles; Um animal racional (An rattional animal, 1962);
Progresso de Platão (Plato's progress, 1966), em especial
sobre Sofista, Parmênides, Teeteto, diálogos manifestamente
ontológicos; Textos reunidos (Collected papers, 2
vols., 1971), reunindo os principais artigos de Ryle, o qual havia escrito
com frequência para revistas especializadas.
871. Karl Raymund Popper (1902-1994). Filósofo austríaco, n. em Viena. Estudou na Universidade de Viena, inicialmente interessado na matemática. Habilitou-se inicialmente para o ensino elementar, depois para o médio. Em 1925 entra a trabalhar no Instituto de Pedagogia de Viena. Doutorado em 1928. Contacta então os neopositivistas do Círculo de Viena e se torna crescentemente um filósofo profissional. No período nazista se afastou da Europa continental. Entre 1935 e 1936 esteve em Londres, proferindo conferências. Transferindo-se para Nova Zelândia, no Pacífico, lecionou filosofia de 1937 a 1945, no Canterbury College, em Christchurch. De retorno à Inglaterra, lecionou no London School of Economics, inicialmente como reader, a partir de 1950 como professor de lógica e metodologias da ciência, até 1969, quando se jubilou. Membro da Royal Society, da British Academy. Recebeu o título britânico de Sir em 1965.
E' Popper um anti-metafísico positivista. Depois de admitir a realidade das coisas, constrói sobre elas uma filosofia caracterizada pelo indutivo caracterizado pela falseabilidade. Os enunciados científicos, ao afirmarem universalmente, não ultrapassam o nível da hipótese. Dentro do Círculo de Viena, ao qual costuma ser integrado, foi uma oposição interna, por causa de suas críticas a diversos pontos de vista do neopositivismo da maioria. Desconsiderou a distinção entre proposição com sentido (resultante de um fato)e a sem sentido (resultante de um processo raciocinativo), porque o que importa é a questão da verdade.
Popper entende a ciência como uma colocação do problema, apresentação de uma conjetura ou teoria como solução, tentativa de refutar a esta. Combateu pois a forma como o Círculo de Viena tradicionalmente a colocava. A boa teoria é a que pode ser refutada, isto é, a que tem possibilidade de fixar condições na qual ela pode ser refutada, caso estas condições não venham a se verificar. A teoria científica pode conseguir tais condições pela sua forma, ainda que efetivamente ainda não tenha sido provada; as afirmativas metafísica não contém tal forma, e por isso nunca se refutam e nem se provam. Como todo o positivista, incorre Popper na contradição interna de sistema. Em sendo positivista, não pode colocar como uma norma absoluta, como esta, de uma proposição é possível de ser verdade, se for refutável; se a colocar, passa imediatamente a se estabelece numa teoria do conhecimento não positivista.
Também se ocupou Popper com a filosofia
da linguagem, defendendo uma posição similar à de
Wittgenstein. Em doutrina social preconizou a tolerância, e advertiu
contra os inteletuais que pregaram o dogmatismo e o sectarismo.
Obras: Lógica da investigação
(Logik der Forschung, 1934), traduzida ao inglês sob o
título Logic of scientrific discovery, 1939); A pobreza
do historicismo (The poverty of historicism, 1947); A sociedade
aberta e seus inimigos (The open society and its ennemies, 1945),
contra Hegel, contra o historicismo e Marx; Conjeturas e refutações:
o desenvolvimento do conhecimento científico (Conjectures
and refutations: the growth of scientific knowlwdge, 1963),
contra seus críticos; Focalizando o problema da racionalidade
e a paz do homem (Aproach to the problem of rationality an the freedom
of man, 1966); Conhecimento objetivo: um enfoque evolucionista
(Objective nowledge: an evolutionary approach, 1972); Filosofia
e física (Philosophy and physics, 1972), ensaios; Busca
sem término: uma autobiografia inteletual (Unended quest:
An Intellectual autobiography, 1976); Os dois problemas fundamentais
da teoria do conhecimento (Die beide Grundprobleme der Erkenntnisstheorie,
1979); Ciência objetiva (Objective knowledge, 1972);
Pos-escrito (Postcript, 3 vols., 1982-1983); O eu o seu
pensamento; The self and its brain, 1977, com J. Eccles; Questão
inacabada, uma autobiografia inteletual (Unended quest, an intellectual
Autobiography, 1976), autobiográfico; Realismo e o objetivo
da ciência (Realisme and the aim of science, 1982); Poscriptum
à Lógica da investigação (Postcript
to logik der Forschung ), 3 vols., 1982), referência ao seu livro
de 1934. Muitos artigos e lições publicadas em separado.
873. Alfred Julius Ayer (1910- ). Filósofo inglês. Estudou em Eton, Oxford, Viena. Lecionou filosofia em Oxford, a partir de 1933. Professor de lógica da Universidade de Londres, de 1946 a 1959. A seguir, até 1970, também de lógica em Oxford.
Positivista radical, sobretudo na sua primeira fase; entretanto, evitou sempre o ceticismo. Relacionou-se com o neopositivismo do Círculo de Viena; atribuiu-se mesmo a um seu livro de 1936, - Linguagem, verdade e lógica, - o caráter de manifesto do neopositivismo inglês. É um representante típico da filosofia analítica, cujo desenvolvimento se deu sobretudo em Oxford e Cambridge, com base na reelaboração das doutrinas de Wittgenstein, retornado à Inglaterra. A filosofia se limita ao processo analítico. A verdade, segundo Ayer repetindo o dogma do Círculo de Viena, está apenas nas proposições verificadas pelas experiência. Quanto aos enunciados lógicos, como os matemáticos, são tautológicos. O princípio da verificabilidade, de que trata Ayer, é reduzido pois à experiência, e o que dela resulta por análise. Verdadeiras seriam pois apenas as proposições empíricas e as tautológicas, lógico-matemáticas. As demais, como as metafísicas, são sem sentido. Todavia, o positivismo, e portanto Ayer, usam o verbo ser, sem notar que este em princípio ultrapassa o tautológico; e ainda a doutrina positivista, como doutrina, é afirmação metafísica...
A realidade do mundo exterior, segundo Ayer, não se pode de pronto descartar. Importa mostrar onde efetivamente ocorrem aspectos subjetivos, ficando o restante tomado como verdadeiramente real, isto é, independente do conhecimento.
A axiologia, inclusive a ética, exprime apenas preformativamente as emoções
Obras: Linguagem, verdade e lógica (Language, truth and logic 1936), na linha do positivismo lógico do Círculo de Viena; A fundamentação do conhecimento empírico (The foundation of empirical knowledge, 1940); Ensaios filosóficos (Philosophical essays, 1954); O problema do conhecimento (The problem of knowledge, 1956); O conceito de uma pessoa e outros ensaios (The concept of a person and other essays, 1963); Bertrand Russel. Filósofo do século (Bertrand Russel. Philosopher of the century, 1967); As origens do pragmatismo. Estudos sobre a filosofia de C.S. Peirce e W. James (The origins of pragmatism0. Studies in the philosphy of C.S. Peirce and W. James, 1968); Metafísica e senso comum (Metaphysics and common sense, 1969); Russel e Moore. A herança analítica, 1971; Probabilidade e evidência (Probability and evidence, 1972); A questão central da filosofia (The central questions of philosophy, 1973); A filosofia no século 20 (The philosophy in the 20th century, 1982); Paz e moralidade (Freedom and morality, 1984).
IV - Positivismo na Alemanha
e regiões de língua alemã. 2216y878.
878. Divisão. Do ponto de vista meramente geográfico, o positivismo alemão do século 19 se desenvolveu em contato externo com os autores ingleses, mais do que com os franceses, como já acontecia com o anterior empirismo. Não obstante o predomínio da filosofia racionalista continuou contudo firme. Do mesmo modo como no século 18, ou século das luzes, Leibniz, Wolff, Kant, o domínio de Kant e dos seus derivados idealistas continua no século.
Do ponto de vista de sistema, o positivismo alemão
se redivide em quadros: primeiramente ocorre um positivismo puro (vd
880), ao modo do tipo padrão da França ou Inglaterra; a este
quadro pertencem E. Laas, Th. Ziegler, E. Düring, F. Jodl, e a ele
se reduzem também os materialistas em geral, como Haeckel.
Paralelamente formaram-se positivismos extremistas,
denominados empírio-criticismo (vd 883), de R. Avenarius,
E. Mach, W. Ostwald, Th. Ziehen; filosofia da imanência (vd
885), de W. Schuppe; filosofia do "como se", H. Vahinger (vd 886).
Também na Alemanha, como acontecera na França, há
também um positivismo de orientação psicológica
(vd 888), representada por J. F. Herbart, R. H. Lotze, T. G. Fechner, W.
Wundt.
Finalmente, já no século 20, eclode
a primeira vez vastamente o positivismo alemão, com o nome neopositivismo,
que teve no Círculo de Viena a sua fonte principal (vd 890).
880. O positivismo puro foi representado na Alemanha por uma sequência de filósofos que reagiam ao kantismo e ao idealismo.
Ernst Laas (1837-1885),
nascido em Potsdam e professor em Strasburgo, autor de As analogias
da experiência, de Kant, um estudo crítico sobre os fundamentos
da filosofia teórica (Kantsanalogien der Erfahrung. Einige
kritische Studie über die Grundlagen der theoretischen Philosophie,
1876) ;Idealismo e positivismo. Uma discussão crítica
(Idealismus und Positivismus. Eine kritische Auseinandersetzung,
3 vols., 1879, 1882, 1884);
Theobald Ziegler (1846-1918),
nascido em Goepingen, professor em Strasburgo, de tendência relativista,
evolucionista, pragmatista, com a religião interpretada como um
produto do sentimento, de onde enfim a importância da investigação
positiva do social e do histórico, autor de História da
ética (Die Ethik der Griescher und Roemmer,1881);
Ser e devir morais. Linhas fundamentais de um sistema de ética
(Sittliches Sein und sittliches Werden. Grundlinien eines Systems
der Ethik, 1890); História da Pedagogia (Geschichte
der Paedagogik, 1895), Correntes espirituais e sociais do século
19, (Die geistigen und sozialen Stroemungen des 19. Jahrhunderts,
1899); História da ética cristã(Geschichte
der Christlichenethik, 1886); Tratado de Psicologia (Lehrbuch
der Psychologie, );
Eugen Dühring (1833-1921), professor
em Berlim, antimetafísico, entendo contudo a filosofia como uma
concepção total do universo a partir de resultados científicos,
em que cabe o espírito, mas não o conjunto de superstições
das religiões, autor de Dialética natural. Nova fundamentação
da lógica, ciência e filosofia (Natürliche Dialektik.
Neue logische Grundlegund de Wissenschaft und Philosophie, 1865);
História crítica da filosofia (Kritische Geschichte
der Philosophie, 1869); Curso de filosofia (Kursus der Philosophie,
1875); Lógica e teoria da ciência (Logik un Wissenschaftstheorie,
1878); A substituição da religião por algo mais
perfeito (Der Ersatz der Religion durch Vollkommeneres, 1883);
Filosofia da realidade (Wirklichkeitsphilosophie, 1895);
Friedrich Jodl (1848-1914), nascido em
Viena, professor em Praga e depois em Viena, positivista monista, mantidos
o espírito como aspecto da realidade e a ética, autor de
A doutrina do conhecimento de David Hume (David Humes Lehre von
der Erkenntniss, 1871); O monismo e os problemas culturais do presente
(Ser monismus und die Kulturprobleme de Gegenwart, 1911); Sobre
o verdadeiro e sobre o falso idealismo (Vom waren und vom falschen
Idealismus,1914), Crítica do idealismo (Kritik des
Idealismus, 1920).
882. Ernst Heinrich Haeckel (1834-1919). Filósofo e naturalista alemão, nascido em Potsdam. Entrou para a classe de história natural da Universidade de Würzburgo. Prosseguiu estudos em Berlim e Viena, para finalmente se doutorar em medicina. Ensinou, a partir de 1862, na Universidade de Iena, anatomia comparada, passando em 1865 a cátedra de zoologia, em que se manteve até 1908. Mantinha correspondência com o sábio alemão emigrado para o Brasil, Fritz Müller, estabelecido em Blumenau, SC, de quem recebia materiais para estudo.
Foi Haeckel o mais popular divulgador do evolucionismo, ao mesmo tempo que criticava o obscurantismo dos religiosos neste particular. Estabeleceu que em cada indivíduo se repete a evolução geral da natureza, ou seja, a ontogênese é uma breve recapitulação da filogênese.
Haeckel tende ao reducionismo dos contrários,
o que finalmente vai dar no monismo de matéria e espírito,
chamado materialismo, que não é todavia o materialismo mecanicista.
Estendeu a teoria do evolucionismo de Darwin a todo o universo, inclusive
psíquico. Defendeu um panpsiquismo, em que o espírito e a
matéria são apenas aspectos da mesma substância em
evolução. Apesar do termo materialismo, se aproximou do monismo
panteísta de Spinoza, o qual não procurava a Deus fora do
mundo, mas dentro dele mesmo, confundindo-o com ele.
Fundou-se em 1906, na Alemanha, uma Liga Monista
Alemã (Deutscher Monisbund), com base no monismo de Haeckel.
Obras: Morfologia geral do organismo (Generalle
Morphologie der Organismus, 2 vols., 1866); História natural da
criação (Natürliche Schoepfungsgeschichte, 1868), obra
importante, em que divide os seres vivos em unicelulares e multicelulares;
Antropogenia (Anthropogenie, 1874); Objetivos e caminhos da atual história
da evolução (Ziele und Wege der heutigen Entwicklungeschichte,
1875); Ciência livre e ensino livre (Freie Wissenschaft und freie
Lehre, 1878); O monismo como união entre religião e ciência
(Der Monismus als Bund zwischen Religion und Wissenschaft, 1893; Os enigmas
do universo (Die Weltraetsel, 1899, sua obra mais difundida e traduzida,
também para o português; Maravilhas da vida (Die Lebenswunder,
1904), traduzida ao português; A luta da evolução.
Pensamentos (Der Kampf um den Entwicklungs. Gedanken, 1905). Além
de obras de ciência.
883. O empirio-criticismo, nome criado
por um dos seus principais representantes, - Avenarius, - foi um
movimento característico do positivismo alemão e alguns países
vizinhos. Contém muito do fenomenismo de Hume, reduzindo a filosofia
e a ciência ao mais econômica, simplesmente aos fenômenos.
Apenas os fenômenos sensíveis se fazem conhecer adequadamente.
Tudo o mais resta para o horizonte do "como se", conhecido apenas negativamente.
Trata-se, pois, de uma aplicação radical, e mesmo coerente,
do princípio básico do positivismo, o qual reduz a realidade
ao que se experimenta, dali resultando consequentemente o fenomenismo,
o anti-substancialismo, o relativismo.
Richard Avenárius (1843-1896) chamou
Empírio-criticismo, fazendo referência a si mesmo. A realidade
consiste em conteúdos de sensação. Autor Crítica
da experiência pura (Kritik der reinen Erfahrung, ); O
conceito humano do mundo (Der menschliche Weltbegriff, ).
Ernst Mach (1838-1916), nascido em Turas
(Morávia), professor em Graz, Praga, Viena, criador de um empirismo
puro, fenomenista, antisubstancialista, devendo inclusive as ciências
físicas tratar seus objetos como se fossem somente sensações,
de acordo com o principio de economia do pensamento, sendo pois assim as
leis naturais senão abreviações da pluralidade das
experiências. Autor de Análises das sensações
e a proporção do físico e psíquico (Die
Analyse der Empfindungen und das Verhaeltniss des Physischen und
Psychischen, 1900); Conhecimento e erro, bosquejo para a psicologia
da investigação (Erkenntnis und Irrtum, Skizzen zur
Psychologie der Forschung,1905).
Wilhelm Ostwald (1853-1932), nascido em
Riga (Letônia), professor em Riga e Leipzig, Presidente da Liga Monista
Alemã, interpretando, com proximidade ao materialismo de Haeckel,
todo o real como energia. Autor de A energia e suas transformações
(Die Energie und ihre Wandlungen, 1888); A superação
do materialismo científico (Die Überwindung des Wissenschaftlichen
Materialismus, 1895); Lições de filosofia natural
(Vorlesungen über Naturphilosophie, 1902); A energia (Die
Energie, 1908), Fundamentos energéticos da ciência
cultural (Energetische Grundlagen der Kulturwissenschaft, 1908);
Filosofia natural moderna (Moderne Naturphilosophie, 3 vols.,
1926-1927).
Theodor Ziehen (1862-1950), nascido em Francfort do Meno, professor de várias disciplinas, por último de Filosofia em Halle, seguiu de perto a Hume e Schuppe, com tendências ao monismo de Spinoza, interpretando o mundo como sendo em parte uma transferência dos nossos sentidos, autor de Teoria psicofisiológica do conhecimento (Psychophysioligische Erkenntnistheorie, 1898); Teoria do conhecimento formula psicofisiológica e fisicamente (Erkenntnistheorie auf psychologischer und physikalischer Grundlage, 1915).
885. A filosofia da imanência, como
se fez conhecer o positivismo de alguns filósofos alemães,
reduziu toda a realidade ao conteúdo da consciência do eu.
Foi portanto um pouco mais longe que o empírio-criticismo.
Wilhelm Schuppe (1836-1913), nascido na
Silésia e professor em Greifswald, é dado como representante
tipo da filosofia da imanência, a qual geralmente é citada
juntando imediatamente o seu nome. Segundo o imentismo de Schuppe importa
desfazer não somente todo suposto metafísico do objeto, mas
também do sujeito. Então no eu, o sujeito e o objeto são
o mesmo. Não ocorre todavia o solipsismo absoluto; há vários
eu's a pensar do mesmo modo, ainda que não com um só objeto.
Dentre suas numerosas obras, citam-se: O pensar humano (Das menschliche
Denken, 1878); Bosquejo de uma teoria do conhecimento e lógica
(Grundriss der Erkenntnistheorie und Logik, 1894); A filosofia
imanentista (Die immanente Philosophie, 1897).
886. A filosofia do "como se" (als-ob)
se diz do sistema positivista relativista, pragmatista de Hans Vahinger
(1852-1933), que consagrou esta denominação em título
de livro "A filosofia do como se" (Die Philosophie des Als-Ob,
1911). Nascido em Nehren, perto de Tübingen, foi professor em Halle.
Deu ao conhecimento uma interpretação
biológica, porque constitui um procedimento a benefício próprio;
a partir dali desenvolveu um positivismo pragmatista, e que ele já
encontra sugerido por Friedrich Albert Lange. Neste sentido concebe, por
exemplo, o eu como se fosse uma substância. Os resultados da ciência
como se fossem válidos. As ficções da religião
como se fossem verdadeiras. A maneira de chegar a estes resultados define
a filosofia de Vahinger como um positivismo idealista.
888. O positivismo de tendência psicológica, na Alemanha, desenvolveu conceito geral de realidade, em que o espírito é parte da realidade, ainda que seja em termos monistas juntamente com a matéria, em forma de paralelismo físico-psíquico. Em decorrência desta posição destacou-se o estudo da psicologia pelos métodos experimentais, acrescendo-se finalmente, por via de acréscimo, ainda que de validade apenas hipotética, a assim denominada metafísica indutiva, com a condição todavia que ela não venha conflitar com os resultados da experimentação científica. A validade deste procedimento está em que o processo raciocinativo da filosofia não colide necessariamente com o da ciência, de sorte que não pode ser rejeitado como necessariamente falso, nem como sendo uma coisa "sem sentido", como quererão geralmente os representantes do neo-positivismo.(vd 890).
Sob o horizonte antimetafísico do formalismo
apriorista de Kant, todavia já orientados para o positivismo, desenvolvem
a psicologia experimental Johann Friedrich Herbart (1776-1841), Rudolf
Hermann Lotze (1817-1881), Theodor Gustav Fechner (1801-1887), especialmente
Wilhelm Wundt (1832-1920) (vd).
889. Wilhelm Max Wundt (1933-1920). Filósofo e psicólogo alemão, nascido perto de Manheim, Baden. Filho de um pastor protestante. Estudou em Berlim, medicina e fisiologia. Professor primeiramente em Heidelberg, desde 1865, e Zurich, desde 1874. Mas foi em Leipzig que fez sucesso, onde lecionou filosofia e psicologia, 1875 a 1917, havendo criado ali o primeiro laboratório de psicologia experimental em 1879.
O ponto de partida de Wundt é positivista, como de Comte e Spencer, mas sem radicalização contra a metafísica, já que esta pode ser tratada sem oposição aos fatos da experiência, como uma extensão explicativa. Progrediu, pois, Wundt na direção de uma assim chamada metafísica indutiva. Esta, para todo efeito não passa de uma hipótese, todavia fundada na ordenação dos resultados da ciência experimental. A filosofia continua o trabalho da ciência, explicando os fatos autênticos por intermédio do princípio da razão suficiente.
Alega Wundt que, para serem plenamente inteligíveis, todos os dados do conhecimento devem ser ligados entre si, de maneira a formarem totalidades sem contradição. Neste esforço de ordenação dos conhecimentos em uma grande unidade, se ultrapassa a experiência. Isto acontece de duas maneiras. Ou a razão suficiente é buscada em outro fenômeno da mesma ordem, e então a sequência se dá numa série ao infinito; cada elemento da série é observável, ocorrendo entretanto a transcendência na série infinita; até aqui se está no plano da ciência experimental. Ou razão é buscada em causa de outra ordem qualitativa, ocorrendo então uma transcendência imaginária, de pura hipótese, mas também legítima, porque não contradiz a experiência, e ainda a tenta explicar. Aqui se encontra o ponto alto do pensamento de Wundt, porquanto não procede com a incoerência dos positivistas em geral; estes outros, ao afirmarem sua posição positivista fazem uma afirmação não positivista, contradizendo-se. Com o expediente assim descrito, Wundt desenvolve uma metafísica indutiva. Também o positivista Karl Popper advertirá, que não se trata de declarar "sem sentido" certas proposições; o que se busca, é a verdade.
A mundivisão de Wundt é a do monismo, no qual físico e o psíquico, funcionando como um paralelismo psico-físico, são em última instância manifestações da mesma realidade. Predominando, é a vontade um puro querer, que explica a atividade do fato de consciência. Este atualismo da vontade não é uma alma substancial.
Wundt não somente se ocupou da psicologia, mas da sua base biológica e epistemológica, até aos temas mais específicos da ética, arte, cultura, estética. Desenvolveu a psicologia dos povos através da psicologia da linguagem, da religião da arte e dos costumes.
Obras: A teoria do movimento muscular (Die
Lehere von der Muskelbewegung, 1858); Contribuições
à teoria da percepção sensível, (Beitraege
zur Theorie der Sinneswahrnehmung, 1862); Manual de fisiologia
(Lehrbuch der Physiologie, 1864); Axiomas fisicais (Die
physikalische Axiome, 1866), com novo nome na edição
seguinte Princípios mecânicos da Ciência natural
(Prinzipien de mekanische n Naturlehre, 1910); Manual de
física médica (Handbuch der medizinischen Physik,
1867); Investigações para a mecânica dos nervos
e dos centros nervosos (Untersuchungen zu Mechanik der Nerven und
Nervenzentren, 1871-1876); Fundamentos de psicologia fisiológica
(Grundzüge der physiologischen Psychologie, 1873); Sobre
a missão da filosofia na atualidade (Über dier Aufgabe
der Philosophie der Gegenwart, 1874); A influencia da filosofia
sobre as ciências empíricas (Der Einfluss der Philosophie
auf den Erfahrungswissenschaften, 1876); Lógica. Uma investigação
dos princípios do conhecimento e dos métodos da pesquisa
científica (Logik. Eine Untersuchung der Prinzipien
der Erkenntnis und der Methoden wissenschaftlischer Forschung, 1880-1883);
Ética (Ethik,1886); Para a moral da crítica
literária (Zur Moral de literarischen Kritik, 1887);
Sistema de filosofia (System der Philosophie, 1889), uma
filosofia científica; Hipnotismo e sugestão (Hypnotismus
and suggestion. 1892); Psicologia dos povos (Voelkerpsychologie,
10 vols., 1900 ss), uma psicologia da linguagem, da religião,
da arte, dos costumes; Introdução à filosofia (Einleitung
in die Philosophie, 1900 ); G. Th. Fechner, 1901; História
e psicologia da linguagem (Sprachgeschichte und Sprachpsychologie,
1901); Introdução à psicologia (Einleitung
in die Psychologie, 1901); Ciência da natureza e psicologia(Naturwissenschaft
und Psychologie, 1903); Pequenos escritos (Kleine Schriften,
2 vols., 1910-1911); Problemas da psicologia dos povos (Probleme
der Voelkerpsychologie, 1911); Mundo sensível e mundo supra-sensível
(Sinnliche und übersinnliche Welt, 1914); Vivido e conhecido
(Erlebtes und Erkantes, 1920); além artigos e outros
textos.
890. Neo-positivismo alemão. Deriva o neopositivismo do empirio-criticismo alemão, conduzindo avante o positivismo sensista e nominalista do século 19. Mas, enquanto o velho positivismo cuidava do exame das relações constantes entre os fatos da natureza, como se fossem leis imutáveis desta natureza, a novidade do neopositivismo está em concentrar-se no exato valor destas relações. Pensaram muitos destes neopositivistas em reduzir estas relações a relações sintáticas de linguagem, à afirmações formais cujo sentido era necessário inquirir e determinar. Então as relações conhecidas passaram a ser diluídas criticamente a esta linguagem mental. O resultado foi considerar a ciência como um saber fragmentário, jamais definitivo, sujeito a revisões constantes.
A análise do significado das proposições
tem em vista estabelecer o rigor na ciência, libertando-a de pseudo-problemas.
Como veio sendo praticada pelos neopositivistas esta análise foi
interpretada como tendo sido um trabalho meritório, e que já
vinha sendo realizado pela lógica matemática, cultivada em
diversos setores, inclusive não positivistas.
891. Círculo de Viena. Como escola, o neopositivismo alemão teve início no Círculo de Viena (Wiener Kreis), surgido por iniciativa de Moritz Schlick(1882-1926). Nascido e formado em Berlim, veio Schlick em 1922 como professor de filosofia das ciências indutivas da universidade de Viena. As reuniões, inicialmente espontâneas e eventuais, passaram ocorrer regularmente a partir de 1924, com a publicação em 1929 de um folheto sobre seus princípios (Concepção científica do mundo - O círculo de Viena), até quando foi assassinado por um seu aluno em 1934. Eram vistos matemáticos, como Hans Hahn, Karl Menger e Kurt Goedel, físicos como Philip Frank, sociólogos, como Otto Neurath, e filósofos, como Rudolf Carnapp (vd), Viktor Kraft, Friedrich Waismann.
Contatos, com aproximações doutrinárias, também ocorreram com outros filósofos e grupos. Note-se Ludwig Wittgenstein (1889-1951) (vd), professor em Cambridge, do grupo da análise da linguagem. Hans Reichenbach (1891-1953), professor em Berlim, posteriormente em Istambul e Los Angeles.
Com o advento do nazismo, e afugentados diversos dos seus membros, difundiu-se também o movimento. Alguns superarão o ponto de vista rigorosamente positivista.
Organizou o Círculo de Viena encontros
internacionais, dos quais foi o primeiro foi em Praga. Graças a
estes encontros e a revista Erkenntnis (Conhecimento), veiculada
de 1930 a 1940, o movimento neopositivista se irradiou vastamente durante
a década pela Europa e Estados Unidos da América. Mas a partir
de 1950 apareceram fortes reparos, feitos, entre outros, por Quine e Stegmüller,
que o acusavam inclusive de conter dogmas.
892.Com referência ainda a Moritz Schlick (1882-1936). Filósofo alemão, n. em Berlim. Estudou física em Heidelberg, Lausane (Suíça) e Berlim, com doutorado em 1904. Exerceu o magistério em Rostock, 1917-1922, depois em Kiel. Havendo derivado para a filosofia, sobretudo para a lógica matemática e a filosofia das ciências, a fama o levou em 1922 para a Faculdade de Filosofia da Universidade de Viena, como professor de filosofia das ciências indutivas. Coordenou as organizações filosóficas preexistentes fora e dentro da Universidade, em forma de seminário, que se reunia regularmente a partir de 1924. Deste seminário resultou o que em 1929 Otto Neurath denominou Círculo de Viena (Wiener Kreis) e que naquele anos reunia um primeiro encontro internacional de Praga. Em 1930 lançava o Círculo de Viena a revistas Erkenntnis (= Conhecimento), a qual durou até 1938, quando a Austria foi anexada à Alemanha de Hitler. Mas o mesmo Schlick foi morto por um seu anterior aluno por razões não bem esclarecidas.
Neopositivista, desenvolveu uma epistemologia empirista. Nada de novo acontece no conhecimento científico, senão sua armadura gramatical, de que trata a filosofia; esta seria apenas uma crítica rigorosa destes fundamentos, ou seja dos métodos e da linguagem das ciências; tudo o mais na filosofia é um sem sentido. Consequentemente as leis da natureza não passam de enunciação de regras gramaticais. O dito além do dado empiricamente verificado não tem, pois, sentido. A ciência é uma tautologia. Ora, a metafísica, como algo que segue além, fica um sem sentido. Acontece na ciência apenas uma nova maneira de organizar, por meio de conceitos e símbolos, de cálculos. Sem nada mudar, o conhecimento é tratado como problema, por exemplo, o problema da coerência entre os conhecimentos, o problema dos juízos sintéticos e dosanalíticos, o problema da validade de um e de outros, o problema da realidade.
Obras: Sabedoria da vida (Lebensweisheit;,
1908); Espaço e tempo na física atual (Raum
un Zeit in der gegenwaewrtigen Physik, 1918); Teoria geral do conhecimento
(Algemeine Erkenntnislehre, 1918); Problemas da ética
(Fragen der Ethik, 1930). Artigos: Vivência, conhecimento,
metafísica (Erleben, Erkennen, Metaphysik, 1926); A
mudança de direção da filosofia (Die Wende
der Philosophie, 1930); A causalidade na física atual
(Die Kausalitaet in der gegenwartigen Physik, 1931); Positivismo
e realismo (Positivismus und Realismus, 1932); Sobre o fundamento
do conhecimento Über das Fundament des Erkenntnis, 1934); Sentido
e verificação (Meaning and verification, 1936).
Publicações póstumas: Ensaios reunidos (Gesammelte
Aufsaetze, 1938), reunindo escritos de 1926 a 1936, incluindo os artigos
acima citados; Lei, causalidade e probabilidade (Gesetz, Kausalitaet
un Wahrscheinlichkaeit, 1938); Elementos de filosofia da natureza
(Grundriss der Naturphilosophie, 1948).
893. Rudolf Carnapp (1891-1970). Filósofo alemão nascido em Rundsdorf, perto de Barmen (hoje Wuppertal), Westafália. Estudou nas universidades de Friburgo-in-Breisgau e Iena (1910-1918). Doutorado em 1921. Em Iena fora ouvinte de Frege. Estudou especialmente a obra de Bertrand Russel. Encontrou-se em 1924 com Moritz Schlick, chefe do círculo de Viena. Leciona na Universidade de Viena, de 1926 a 1931, quando passou a operar como um dos membros mais atuantes deste grupo neopositivista. De 1931 a 1935 lecionou na Universidade de Praga, Tchecoslováquia. Com a ascensão do nazismo emigrou para os Estados Unidos da América, onde trabalhou nas Universidades de Chicago, Harvard, Princeton, por último na de Los Angeles, ali permanecendo até seu falecimento aos 81 anos.
O neopositivismo de Carnap é um empirismo antimetafísico, com elementos kantianos, como aliás fora peculiar ao Círculo de Viena. O ponto de vista empirista considera só uma fonte de conhecimento, a sensação, que capta fatos isolados, coordenados pela indução generalizadora. Só tem sentido (Sinn, meaning) as proposições da experiência e as analíticas neste mesmo campo A filosofia se reduz ao ato de esclarecer tais sentenças.
Mas, para o neopositivista, o conhecimento não cria apenas generalizações indutivas. As leis da lógica independem da experiência. São a priori, sintéticas, puramente tautológicas; todavia nada significam de novo. São como que regras de gramática, elaboradoras dos dados da experiência; são regras sintáticas, por sua vez apoiadas em princípios convencionados arbitrariamente. Tudo é pura posição (Setzung). O neopositivismo é um formalismo entre o positivismo clássico e o kantismo. Neste, no kantismo, os juízos sintéticos não são todavia tautológicos, como no neopositivismo, no qual os enunciados não ultrapassam a tautologia. Por isso, a filosofia, para o neopositivista, não é mais do que o estudo da sintaxe lógica dos enunciados científicos. Criando um sistema de signos, estes são os termos da linguagem científica. Carnap também vai aos detalhes, como por exemplo, a testabilidade e confirmabilidade das proposições. Tem sentido as proposições analíticas; as proposições não analíticas não têm sentido, salvo se for verificável. Todavia mais tarde tendeu a suavizar estas afirmativa. Distingue, a partir de 1941, entre probabilidade indutiva, ou lógica, e a probabilidade estatística.
Obras: O espaço. Uma contribuição à teoria da ciência (Der Raum. EinBeitrag zur Wissenschaftslehre, 1922); Conceptualização fisicalista (Physikalische Begriffsbildung, 1926); A construção lógica do mundo. Ensaio de uma teoria de constituição dos conceitos (Der logische Aufbau der Welt. Versuch einerKonstitutionstheorie der Begriffe, 1928); Problemas aparentes em filosofia. O psíquico alheio e a discussão em torno do realismo (Scheinprobleme in der Philosophie. Das Fremdpsychische und der Realismusstreit, 1928); Exposição da logística, com especial consideração da teoria da relação e de suas aplicações (Abriss der Logistik, mit besonderer Berücksichtung der Relationstheorie und ihrer Anwendungen, 1929); O tema da lógica da ciência (Die Aufgabe der Wissenschaftslogik, 1934); Sintaxe lógica da linguagem (Logische Syntax der Schprache, 1934), ampliada em 1937 pelo autor na tradução inglesa; Testabilidade e significação (Testability and meaning, 1936); Fundamento da lógica e da matemática (Foundations of logic and mathematics, 1939, na International Encyclopeia of Unified Science, I, 3); Estudos de semântica, I. Introdução à semântica. II - Formalização da lógica (Studies in semânticas I.Introduction to semantics, 1942. II.Formalization of logic, 1943) ; considera-se como III, no grupo anterior, o livro Significado e necessidade (Meaning and necessity. A study in semantics and modal logic, 1947); Sobre lógica indutiva (On inductive logic, 1945); O fundamento lógico da probabilidade (Logical foundations of probability, 1950); O contínuo dos métodos indutivos (The continuum of the inductive methods, 1952).
V - Positivismo no mundo.
2216y894.
894. Fora da Europa o positivismo recebeu
larga acolhida, sobretudo nos meios que cultivam a matemática, por
exemplo, militares. Nos Estados Unidos da América ainda se desenvolveu
na forma especial de Pragmatismo (vd).
896. No Brasil o positivismo teve ampla aceitação, quer nas escolas de direito, quer nos círculos militares em virtude da matemática, quer ainda no movimento republicano. Teve também seus materialistas e evolucionistas. Em Recife notaram-se primeiramente Tobias Barreto (1839-1889) e Silvio Romero (1859-1914), depois emigrados para outros centros. No Rio de Janeiro o republicano Benjamim Constant (1837-1891) fundava em 1876 a sociedade positivista. Mas a igreja positivista foi mais um esforço de Miguel Lemos (1854-1917) e R. Teixeira Mendes (1855-1927).
897. Na Argentina ...
VI - Pragmatismo (nos países em geral). 2216y900.
900. Definição. Surgiu o pragmatismo como reação em duas frentes, -reação ao racionalismo em geral, sobretudo ao idealismo hegeliano, e reação ao positivismo, ao qual ele mesmo pertence, buscando todavia ultrapassá-lo algum tanto, através de seu critério de verdade, o sucesso. A coisa em si não se a consegue conhecer, senão naquilo que a experiência oferece, ficando portanto para nós a realidade reduzida a um conglomerado de elementos heterogêneos, que não conseguimos submete a um principio ordenador absoluto, como querem o panteísmo de Spinoza, o transcendentalismo de Kant, e sobre o idealismo de Hegel. Não podendo o princípio ordenador ser detectado pela via meramente especulativa, como querem os procedimentos das filosofias racionalistas, mas devendo ser algo experimentalmente verificável, somente resta a utilidade, o proveito, o resultado; este outro campo está no plano do verificável, e portanto é capaz de ser tratado cientificamente. A base gnosiológica do pragmatismo é, pois, a do sucesso como critério de verdade, assim analisado por seus propugnadores.
Precursor do pragmatismo foi Charles Sanders Peirce (1839-1914) (vd); neste sentido são lembrados também Ch. Wright e F. E. Abbot. Seu principal representante e propriamente chefe fundador foi William James (1842-1910) (vd). Desenvolveram-se logo várias diretrizes pragmatistas. Cresceu dentro do círculo pragmatista a assim chamada Escola de Chicago, na qual o nome de destaque foi John Dewey (1859-1952) (vd), cuja face é notoriamente sociológica. Outro foi o pragmatismo liderado por Ferdinand. C. S. Schiller (1864-1937) (vd), de caráter mais subjetivo, no sentido de anti-absoluto.
Geograficamente, o pragmatismo é um fenômeno
americano. Mas, em princípio em todos os tempos e em todos os lugares
sempre se admitiu um certo pragmatismo, em nome do senso comum. Efetivamente,
pelo menos como critério secundário, não há
como negar a importância do sucesso como característica da
verdade e da impraticabilidade como peculiaridade do erro.
Ocorre também uma fonte alemã do
pragmatismo, cruzando com o neopositivismo e até com o neokantismo.
Neste sentido é lembrado Friedrich Albert Lange (1828-1875) como
efetivo fundador do pragmatismo alemão, havendo neste sentido inspirado
também o caráter pragmatista da filosofia positivista do
"como se" de Hans Vahinger (vd 886).
De outra parte, um pragmatismo como critério
de base, pode resultar em psicologismo, o qual, coerentemente não
leva em conta ao conhecimento como conteúdo. E então, por
falta de coerência interna, o pragmatismo psicologista não
consegue estabelecer-se como doutrina, isto é, como conteúdo
afirmado, sem se negar a si mesmo.
901. Peirce. Charles de Santiago Sanders... (1839-1914). Físico e filósofo norte-americano, n. em Cambridge, Massachussets. Estudou na Universidade de Harvard. Doutorado em química, 1963. Por 30 anos trabalhou na Comissão de Estudos Geodésicos dos Estados Unidos da América. Por isso seu primeiro livro, publicado em 1878, se ocupará com esta área temática. Entretanto suas ocupações mentais se haviam dirigido também para a lógica e a filosofia em geral. Foi professor de filosofia sem título permanente da Universidade de Harvard (Cambridge, Massachussets) de 1864-1865, de novo 1869-1870); por último, de lógica, de 1879 a 1884, na Universidade de John Hopkins (Baltimore). Demitido por razões pouco claras, se sabe que foi um homem de temperamento difícil. Apoiado com uma pequena herança, retirou-se em 1887 à Milfort, Pensilvânia, dedicando-se no restante de sua vida à filosofia, escrevendo e eventualmente também fazendo conferências.
Não obstante sua atuação contemporânea, Peirce foi sobretudo um filósofo de repercussão tardia, e o foi em vários campos da filosofia; alias pouco publicou em vida. Importa Peirce ainda como filósofo da fase formativa da história da filosofia dos Estados Unidos da América.
Estabeleceu uma atitude crítica em relação ao pensamento tradicional, ao qual estudou nas fontes principais, como a inglesa, alemã (Kant), medieval (Duns Scoto). Dali nasceu sua filosofia pragmatista, que teria em William James o explicitador. Foi o primeiro moderno a usar o termo pragmatismo em conotação com a filosofia, e a destacar a funcionalidade prática como critério da verdade. Complementou a lógica com apreciáveis estudos de semiótica.
Retomou a teoria estóica dos signos. Definiu o signo como coisa em relação com outra. Já muito antes do neopositivismo do Círculo de Viena destacou a necessidade da análise da linguagem em filosofia, mas sem radicalizar como os representantes do referido neopositivismo. Opôs-se ao psicologismo. Destacou o papel da hipótese no método experimental. Abdução é a criação da hipótese. Indução é o processo que a invalida ou confirma.
Obras: Investigações fotométricas
(Photometric researches, 1878 (Logos diz 1879); Estudos de
lógica (Studies in logic, 1883), obra principal; A
grande lógica (The great logic, deixada inédita.
O mais que publicou em revistas ou deixou inédito, foi reordenado
postumamente. Publicado como obra póstuma: Papéis coletados
de Charles Sanders Peirce (Collected papers of Charles Peirce, 8
vols., 1931-1958): I - Princípios de filosofia (Principles
of philosophy, 1931), II- Elementos de lógica (Elements
of logic, 1932), III - Lógica exata (Exact logic,
1933), IV - A matemática mais simples (The simplest mathematics,
1933), V - Pragmatismo e pragmaticismo (Pragmatism and pragmaticism,
1934), VI Metafísica científica (Scientifics metaphysics,
1935), VII - Ciência e filosofia (Science and philosophy,
1958); VIII - Revisões. Correspondência e bibliografia
(Reviews. Correspondence and bibliography, 1958). Destacam-se
os artigos: Como tornar claras as nossas idéias (How to
make our ideas clear, 1878), publicado em Popular Science Montly,
sendo considerado marco inicial do pragmatismo; O que é o
pragmatismo (What pragmatism is, 1905), em The Monist. Ainda
a obra: Novos elementos de matemática (News elements of
mathematics, 4 vol., 1976): I - Elementos de aritmética (Elements
of arithmtic), II - Elementos de álgebra e geometria, III
- Miscelânea matemática (Mathematical miscellanea),
IV - Filosofia matemática (Mathematical philosophy).
902. William James (1842-1910). Filósofo norte-americano, de origem irlandesa, nascido em Nova Iorque, em família herdeira de grande fortuna. As viagens frequentes a Europa lhe deram conhecimentos práticos abundantes e o uso fácil do francês e alemão, além de sua língua inglesa. Seus estudos são todavia pouco disciplinados, havendo passado por diversas escolas superiores entre 1855 e 1860, interessando-se por ciências naturais e arte da pintura. Estudou medicina em Harvard. Dentro do mesmo objetivo estudou fisiologia na Universidade de Berlim. 1867-1868. Finalmente graduou-se em medicina na Universidade de Harvard, 1869. Professor de fisiologia e anatomia a partir de 1873 na Universidade de Harvard; passou a professor adjunto de fisiologia de 1876 a 1880; de filosofia em 1880 a 1885, finalmente titular de filosofia de 1885 a 1889; de psicologia de 1889 a 1897; de novo de filosofia 1897 a 1907.
Ministrou W. James também cursos em outras universidades, que serviram de base de texto para alguns dos seus livros. Participou da Sociedade Americana para Pesquisas Científicas. Manteve estreita ligação com Bergson e Renouvier.
O pragmatismo, ainda que antecipado por Charles S. Peirce, teve em William James seu principal formulador, imprimindo-lhe um fundo psicologista. Negou, como o positivismo em geral, o valor do caráter contemplativo ou teórico do conhecimento. Além disto, as coisas, como realidades fluentes (conforme Bergson) não poderiam por isso mesmo ser captadas em si mesmas. Mas não permaneceu William James nas limitações do positivismo anterior, porque se advertiu que no aspecto prático dos acontecimentos teria o pensamento como se avaliar. Verdadeiro é o que funciona para a ação. O pragmatismo é, pois, uma concepção instrumental do pensamento (instrumentalismo). Todavia, para Bergson a coisa seria alcançada pela intuição, que não há no pragmatismo.
Admitindo a psicologia introspectiva, a qual não dispõe de métodos experimentais objetivos de observação dos fenômenos, admitiu a possibilidade de estabelecer a validade da observação através da harmonia de toda a investigação. É quando adverte para a unidade do indivíduo, porquanto os pensamentos não se apresentam como se sucedendo ao acaso, porém se tivessem um sujeito comum. Isto é o resultado ao qual conduz o senso comum. Não seria um procedimento racionalista para provar a existência de um eu transcendental (Kant), ou mesmo de uma alma substancial.
James ocupou-se também da religiosidade e da educação. Importa na religião o sentimento, e não o que se conceptualiza. Restam sem importância o que as religiões oferecem doutrinariamente à base de revelações e de especulação meramente racional.
Obras: Princípios de psicolologia
(The principles of psychology, 1890); Livro-texto de Psicologia,
curso resumido (A text-book of Psychology, briefer course, 1892);
A vontade de crer (The will to believ, 1897); Imortalidade
humana (Human immortality, 1898); A escola e a sociedade
(The school and society, 1899); Sobre alguns ideais da vida (On
some of life's ideals, 1899); As variedades da experiência
religiosa; estudo sobre a natureza humana (The varieties
of religious experince; a study in human nature, 1902); Pragmatismo,
um novo nome para velhas maneiras de pensar (Pragmatism, a new name
for old ways of thinking, 1907), muito difundido; A concepção
de verdade do pragmatista (The pragmatist's conception of truth,
1907); Um universo pluralístico (A pluralistic universe,
1909); O significado da verdade (The meaning of truth, 1909);
Alguns problemas de filosofia, o começo de uma introdução
a filosofia (Some problems of philosophy, a beginning to an introduction
to philosophy, 1911); Memórias e estudos (Memories
and studies, 1911); Ensaios sobre o empirismo radical (Essays
in radical empiricism, 1912), póstumo; Cartas de William
James (Letters of William James, 1920), editadas pelo filho
H. J. James.
903. John Dewey (1859-1952). Filósofo e educador norte-americano, nascido em Burlington, Estado atlântico de Vermont. Estudou na Universidade de Vermont, seguindo depois para a Universidade de John Hopkins, Baltimore, doutorando-se em filosofia, em 1884. Lecionou sucessivamente nas universidades de Michigan (1884-1894). Depois de um ano na de Minesota, retornou a Chicago. Por último na Universidade de Columbia, de Nova Iorque, de 1904 a 1930. Foi Dewey um homem participante do seu tempo, o qual nos Estados Unidos era o da filosofia hegeliana e pragmatista, bem como intensa atividade dos filósofos das educação. Em contato inicial com a filosofia de Hegel, em textos de G. Morris, publicou dentro desta orientação seus primeiros artigos de revista e livros. Na década de 1890 assimilou também o pragmatista de William James. Conservou de Hegel a imagem da síntese unificadora, a relacionalidade do real e sua ação processual, amenizando todavia o monismo formalista. De outra parte, do pragmatismo tomou a importância da experiência e o critério do sucesso. Desta combinação da força do espírito e do valor do comportamento (behavior) resultou algo de eclético, - quando apreciado do ponto de vista do historiador, - mas que poderá ser, - de outra parte- , a verdade global do homem. A intensa atividade de Dewey o tornou um dos chefes do pragmatismo, mas destacando nele não somente o seu naturalismo empirista, e sim ainda reforçando seus elementos dinâmicos, dialéticos, historicistas. A experiência nos revela problemas, diante dos quais o homem não permanece passivo, buscando alterar a natureza das coisas. Sobretudo o homem moderno aprendeu a modificar a natureza.
Desenvolveu uma concepção instrumentalista do conhecimento, o qual se coloca a serviço da ação. Estabeleceu princípios para uma reforma pedagógica, baseados em objetivos sociais e na psicologia do aprendizado; portanto, era preciso aprender mais pela prática, do que pelos livros. Concebeu a educação como uma experiência em contínua reconstrução. A verdade é equivalente ao útil, prático, eficaz.
Obras: Psicologia de Kant (The psychology
of Kant, tese do doutorado em 1884); Psicologia (Psychology,
1887); Esboço de uma teoria crítica ética (Outlines
of critical theory of ethic, 1891); Meu credo pedagógico
(My pedagogic creed, 1897); Psicologia e método pedagógico
(Psichology and pedagogic method, 1899); Escola e sociedade
(The School and society, 1899), obra que conseguiu se destacar;
Como pensamos (How we thing, 1910); A influência
de Darwin sobre a filosofia (The influence of Darwin on Philosophy,
1910); Ensaios de lógica experimental (Essays in experimental
logic, 1916); Democracia e educação (Democracy
and education, 1916), um dos bons livros de Dewey; Reconstrução
na filosofia (Reconstruction in philosophy, 1920); Natureza
humana e conduta (Human nature and conduct, 1922); Experiência
e natureza (Experience and nature, 1925); A questão
da certeza (The quest for certainty, 1929); Filosofia e civilização
(Philosphy and civilization, 1931); A arte como experiência
(Art as experience, 1934); Uma fé comum (A
common faith, 1934); A lógica, a teoria da investigação
(Logic, the theory of inquiry, 1938); Liberdade e cultura
(Fredom and culture, 1939; Problemas do homem (Problems
of man, 1946).
904. Ferdinand Canning Scott Schiller. (1864-1937). Filósofo, nascido em Ottensen, perto de Altona, Alemanha. Cedo se transferiu para a Inglaterra, onde cursou filosofia em Oxford. Professor visitante, de 1893 a 1897, na Universidade Cornell, Ithaca, N. Y. Fellow no Corpus Christi College, de Oxford, 1897-1926. Entrementes, doutorou-se em 1906. Presidente, em 1921, da Sociedade Aristotélica. Membro da Academia Britânica em 1926. De novo, em 1919, nos Estados Unidos da América, como professor convidado, na Universidade Southern Califórnia em Los Angeles, passando finalmente a catedrático em 1935, vindo ali a falecer dois anos depois.
Pragmatista, a partir de 1903, sob uma forma que
ele denominou humanista. Adotadas as restrições positivistas
ao conhecimento racional, não há como chegar a uma verdade
absoluta. Advertindo também para o aspecto subjetivo do conhecimento,
está a verdade em um constante devir. Como a vida está em
evolução (Spencer, Darwin e Bergson), também a verdade
se reduz à corrente da vida. O homem é a medida de todas
as coisas (Protágoras). O princípio de identidade é
falso e assim também acontece cos leis da lógica. Visava
Schiller combater principalmente o idealismo hegeliano de Bradley, Bosanquet,
T. H. Green, então vigentes em Oxford. Em ética e religião
homem pratica atos valorativos pessoais, que não são portanto
determinados em função ao prévio estabelecimento por
via abstrata, como acontece nas filosofias racionalistas.
Não obstante entre as muitas proposições
possíveis, pode-se determinar a verdadeira se a experiência
verificar se é útil.
Obras: O enigma da esfinge. Um estudo sobre
a evolução, escrito por um troglodita (Ridles of the
Sphynx. A study of evolution written by a troglodyte, Londres, 1891);
Axiomas e postulados (Axioms and postulates, 1902), primeiro
texto pragmatista, publicado no volume Personal idealism, ed. H.
Sturt; Humanismo: ensaios filosóficos (Humanism: philosophical
essays, 1903); Estudos do humanismo (Studies in humanism, 1907);
Platão ou Protágoras (Platon or Protagoras, 1908);
Lógica formal (Formal logic, 1912); Problemas de
fé (Problems of belief, 1924); Tântalo ou o
futuro do homem (Tantalus or the future of man, 1924); Porque
humanismo? (Why humanism?, 1924), texto menor, de auto-exposição
de sua filosofia, integrado no livro Filosofia britânica contemporânea
- depoimentos pessoais (Contemporary British Philosophy - personal
statements, 1924, ed. J. H. Muirhead; Eugenia e politica (Eugenics
and politics, 1926); Pragmatismo (Pragmatisme, 1929),
artigo na Enciclopédia Britânica; Lógica para uso.
Uma introdução à teoria voluntarista do conhecimento
(Logic for use. An introduction to the voluntarist theory of knowledge,
1929); Decadência social e reforma eugênica (Social
decay and eugenical reform, 1932); Deveriam os filósofos
discordar? e outros ensaios de filosofia popular (Must philosophers
disagree? and other essays in popular philosophy, 1934); A nossa
verdade humana (Our human truths, 1939), póstuma.